Mamita

Eu poderia ter seu filho que não existe, Mamita. Embalá-lo num berço de possibilidades futuras
Tê-lo no colo sob seu olhar de rascunho.

Dia perfeito

Sim, horrível, indigno. Caliginoso, boa palavra. Depois disso, o bambu começou a brotar.

Poucas coisas na vida me dão tanto prazer quanto observar as folhinhas verdes na varanda.

O Ex-comunista

– O mundo precisa dos pobres. Demorei a entender isso, mas agora sei: mundo sem pobres é inconcebível.
Aquela frase dita assim, de chofre, no meio de uma conversa informal, me chocou, confesso.
– Por muito tempo algumas pessoas lutaram pelo fim da pobreza.
Eu próprio fui um deles. Mas agora entendo que a pobreza é necessária ao equilíbrio do planeta – ele continuou.

por Zeca Baleiro

MAIO 2018, NAS GRAÇAS

“eu então sabia que a vida seria isto
enquanto descia a rua com meu cachorro
eu sabia que descia aquela rua no entardecer
da minha juventude, uma rua de mangueiras, jasmins e acácias,
em cuja esquina uma buganvília jorrava
em flor sobre os muros de uma casa,
renovando-me o gesto de calma contemplação
contra o meu espírito obstinado em velhas questões
seria isto –”

por Laís Araruna de Aquino

Sandra

“Me lembrei de Sandra por conta do natal. Não que a gente tenha passado as festas de fim de ano juntos, é que eu me esqueci de comprar um presente e acabei tocando pra frente o porta-retratos em que repousava aquela fotografia – a gente embaixo dum guarda-sol tomando cerveja – que ela me deu.”

por Lucas Verzola

A consulta

“Ao me deparar com uma prestativa atendente na antessala da clínica vazia em plena tarde de terça-feira, quase me arrependi de ter cedido o ultimato feito pelo próprio médico ao telefone, mas foi só me recordar do irrecusável apelo que qualquer dúvida se dissipou: pelo dobro do preço normal da consulta, teria direito a um atendimento trinta minutos mais breve.”

por Lucas Verzola

Tântalo e o mundo

“é inútil esticar
o braço para tentar
alcançar o mundo.”

por André Oviedo

Possessão

“Decreto que o pronome possessivo da primeira pessoa do singular, meu, minha, não corresponde à verdade dos fatos, e será abolido da vida que levo, pois: a xícara não é minha, embora a tenha comprado; o irmão não é meu, nem de si mesmo; a vista da janela não pode ser minha, para os olhos que estão em mim é que ela se abre; os olhos não são meus, existem nesse rosto para que me identifiquem;”

por João Anzanello Carrascoza

Último domingo de outubro

“Último domingo de outubro, nenhuma nuvem para estragar o passeio. Em volta da mesa do café, os cinco mastigam apressados. Enfim, a pescaria tantas vezes protelada acontecerá. Novembro já entra no período de defeso: proibido incomodar os peixes em sua casa silenciosa. E quem mais rápido mastiga é o Eduardo, excitado com a promessa a se cumprir. De nada adiantam as advertências da mãe para que mastigue direito. As duas irmãs, que sempre detestaram os piqueniques de domingo à beira da lagoa, riem deliciadas com a careta do Eduardo, que acaba de queimar a língua com o café quente.”

por Menalton Braff