A Casa Mário de Andrade

por Marcelo Nocelli
Mario de Andrade

Anos atrás, o Evaldo, um amigo que trabalhava comigo sempre insistia – na maioria das vezes quando estávamos embriagados, jogando sinuca:

– Você precisa ir lá em casa.

Eu estranhava o convite:

-Por que você sempre diz que eu preciso ir à sua casa?

-Porque você é escritor.

– E daí?

– E daí que eu moro em uma pensão na Rua Lopes Chaves.

– E daí?

– E daí, você não sabe da importância da Rua Lopes Chaves? Moro ao lado da casa onde morou o poeta Mário de Andrade… E a casa fica aberta a visitação. É um centro cultural.

Eu sabia que o poeta morara lá. Mas não conhecia a casa. Sempre que Evaldo vinha com essa história eu me lembrava do poema “Quando eu morrer”. Um sábado chuvoso pela manhã, em dezembro de 2003, pisei lá pela primeira vez. Mário sempre foi um ídolo. Chamava-me atenção, além de sua obra, sua vida; um poeta que amava demais e ao mesmo tempo, dizem, passou toda a vida como assexuado, condição que se deu por sua indefinição quanto à própria sexualidade. Mesmo assim, ele sempre exaltou musas imaginárias. Também era inseguro quanto aos próprios versos, e por isso, assinou suas primeiras publicações com o pseudônimo de Mário Sobral.

Entretanto, quando conheceu Anita Malfatti sua vida mudou. Em um sábado chuvoso, em dezembro de 1917, o jovem poeta caminhava pelo centro de São Paulo ruminando sobre seus escritos, sobre a falta de estilo que acreditava ser seu maior defeito literário e ao mesmo tempo preocupado com a chuva fina que caía e que poderia comprometer o pó-de-arroz com que ele besuntava o rosto para camuflar a cor mulata da pele.

Muito mais para se esconder da chuva do que propriamente visitar a exposição que havia ali, Mario entrou em um salão na Rua Libero Badaró e se deparou com quadros vibrantes, de imagens disformes, com cores que não correspondiam à realidade, explodiu numa gargalhada que, descobriria mais tarde, não era de escárnio (como tentara representar num primeiro momento), mas sim de fascínio (como veio a perceber logo em seguida).

Mário voltou oito vezes à mostra da artista. Entre tantos quadros o que mais o fascinou foi “O homem amarelo” – criado pela autora em 1915 – uma pintura com características cubista e expressionista. No quadro, a figura humana como personagem principal torna-se secundário perante a explosão de cores em pinceladas firmes, totalmente diferente do naturalismo que predominava no Brasil. O homem amarelo, que tanto encantou Mário foi criado a partir de um modelo que posou para a pintora; um homem pobre, imigrante italiano, que segundo a própria Anita, ao entrar para posar, tinha uma “expressão desesperada”. Mas o homem no quadro não é propriamente um homem, ou sua caricatura, e sim uma mascará humana potencializada em cor, levemente sóbria, quase indiferente a si mesmo, e uma das figuras mais expressivas da artista. Ao se conhecerem melhor, e após Mário falar sobre seu encantamento pelo quadro, Anita o presenteou com o “Retrato de Mário de Andrade” (1921). Mário a levou para a Semana de Arte Moderna e conseguiu para a amiga o tão almejado Pensionato Artístico do Estado de São Paulo, que possibilitou a pintora sua partida para a França.

Desde aquela primeira exposição, Mário passou a acreditar na criatividade de sua poesia e criou coragem para assinar suas obras. Uma grande amizade surgira entre os dois, e logo Anita se viu apaixonada pelo poeta, que em sua misteriosa vida amorosa definida pelo amigo Oswald como “pansexual” passou a incluir um caso intenso e platônico com a pintora. Muitos dizem que Anita passou a vida toda amando Mário, e só era correspondida por um sentimento puro da alma do poeta.

Mário tinha uma vida sofrida e cercada por preconceitos – Rachel de Queiroz anotou em sua autobiografia que o escritor paulista era discriminado na cidade por ser gay e mulato. E acrescentou: “As duas coisas eram verdadeiras”. Nessa mesma época veio o rompimento com o grande amigo Oswald que não poupou palavras grosseiras, como por exemplo, apelidar Mário de “Miss Macunaíma” e dizer aos quatro cantos que o ex-amigo era muito parecido, “pelas costas”, com Oscar Wilde, autor irlandês notoriamente gay – e, mesmo assim, o poeta escrevia, desabafava, amava a vida, a cidade, o país e as pessoas a seu modo. Em uma carta à Anita, quando ela já estava na França, Mário terminou com: “um grande abraço infantil e fraternal do amigo Mário” a qual ela, em sua resposta, terminou com “um beijinho adolescente e nada fraternal”. Por essas e outras ingenuidades de Mário que passei a ler suas poesias sempre com a imagem do autor, lendo, além das belas construções literárias, a alma de um verdadeiro poeta da vida…

E ao entrar na Casa do Mário de Andrade pela primeira vez, naquela manhã chuvosa de 2003, eu falei com ele. Tentei ouvir sua alma e aquela casa passou a ser para mim, uma espécie de santuário. E Mário, se tornou, dentro da “minha ingenuidade”, uma espécie de santo ao qual confessei, ali naquela casa, meus primeiros pecados literários. Não é à toa que a capa do meu último livro “Reminiscências” é uma foto feita na janela dessa casa, na Rua Lopes Chaves, 546.

Agora, (2013) o cineasta Luiz Bargmann, fez esse belo documentário sobre a casa!

Marcelo Nocelli, nasceu em 1973, em São Paulo, cidade onde mora. É formado em Letras. Como escritor, estreou em 2007 com o romance “O espúrio”. Em 2009 publicou o romance policial “O corifeu assassino” (traduzido para o italiano).  Tem diversos contos e crônicas publicadas em revistas e sites especializados. pela reformatório publicou “reminiscências” (2013).
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