Petit Trois

por Mafra Carbonieri

Petit Trois

Ciúme

Ontem, sem que eu merecesse, o Fumaça me brindou com um baseado de qualidade. Gentileza assim, irmão, só no Carandiru, embora não em todos os recintos. Boa de cheiro e de corpo, a erva me elevou. Axé. O Fumaça reteve a tragada e soltou-a com comedimento. Olhou a gorda, imensa, na capa duma revista antiga. Ao esticar as pernas, ele sentenciou no conforto:

“Gorda só se come no escuro, depois do banho e antes dos trinta”, jogou no piso a revista.

Relampejava na ventana e a noite apareceu em plena tarde. Trancei os dedos na nuca e fechei os olhos. Sonhei que Dora e Susete me disputavam a tapas na birosca do Eládio. Desmontaram o balcão na raiva e não respeitaram nem as imagens do Candomblé. Derrubaram garrafas e pertences do Eládio. Foram rasgando os trapos até só restar a calcinha e a sandália de dedo. Rolaram no chão de tijolo até a rua e ninguém chamava um santo para desapartar. Quase peladas, com ardor nas coxas e fúria nos cabelos, elas se enfrentavam por mim, meu irmão. Rodavam a maior baiana por este seu criado.

Acordei mais homem, o pau enaltecido sob a coberta de baeta.

No corredor do 9, e depois no pátio, o encontro com Jurandir não teve enrosco. O Fumaça me gabou o sangue-frio. Casualmente, cheguei a perguntar por Dora, ao sacana, como quem pede notícia duma cadela velha, dada por necessidade a um vizinho. Ele não arriscou nenhuma soberbia, ainda que não abaixasse a cabeça. Eu me lembrei do sonho para distrair a vingança. Susete, de calça jeans e blusa fofa, o umbigo de fora e o abraço macio, perfumava os lençóis mais do que Dora.

Já o pastor Genovevo não esconde o entusiasmo pelo companheiro de cela. “Ele é da paz”, disse de Jurandir. “Não cria polêmica. Usa o boi com retidão, sem alarmar os podres do corpo. Vive no estrito senso e um dia encontrará Jesus, como o apóstolo Paulo na Estrada de Osasco.” E acrescentou com a Bíblia em cima do saco rendido: “Fique na sua, meu lindo.”

Não chego a rir: para um cabra como eu, o riso não é uma alegria, é um recurso. Desde que topou com Jesus, num desses motins de presos, o pastor Genovevo repete muito “meu lindo”, sem prejuízo do gênero masculino. Imagino Jurandir e Dora na cama, quem sabe, na minha? Cuspo no cimento uma espuma rendilhada.

Mas o domingo amanheceu claro como uma traição.

Não avisaram a minha pessoa de que Susete estava na fila, depois do portão. No entanto, quando ela ainda seguia pelo corredor da guarda, o sapato de salto, o vestido curto, aquelas transparências em azul, o colar de contas sobre o decote fundo, as unhas rosadas e o realce do batom na boca inocente, todos já sabiam e disfarçavam o entendimento. A visita era para Jurandir. Ninguém ousava me encarar. Deitei no beliche. O Fumaça espantou a mosca com a mão solidária e me acudiu com o café. Não recusei.

Você não inscreveu a Susete para os encontros, disse Fumaça.

Mais dois anos e saio daqui, desconversei. Quantos dias e quantas noites? Estou sem cabeça. Faça o cálculo, meu irmão.

Um dia depois, registrei Dora.

Traição

Chegou com fama de vidente, mas se diz perceptivo. Seu apelido agradou a todos, Sombra. Aprecia refugiar-se no escuro, onde camufla a pele negra e os músculos mansos. É estelionatário e ladrão como a maioria dos homens, só que não gosta de aparecer em púlpitos ou palanques. Antes de dormir, ele reza em tom menor, um breve zumbido que não incomoda ninguém. Estrábico, de beiços arredondados, a carapinha lisa e o desleixo da braguilha, sempre deixa a impressão de estar olhando para a nossa vermelha sunga. Nada se sabe, porém. Perceptivo.

Na cadeia, a difamação faz o tempo passar sem os atropelos da verdade. O crime nos dignifica e o pecado nos absolve. A inocência aqui é falta grave. Mas vimos logo: tinha o Sombra parâmetro e compostura. Inimigo do acaso, mas não do destino, quando sentia o cheiro da mulher dos outros, nas visitas íntimas, entregava-se ao transe e ao sofrimento das visões.

Jamais acreditou nas coincidências. Durante o banho de sol, colado ao muro, sozinho, escondia-se da claridade, não do calor. Se partilhava o infortúnio com os outros detentos, ficava com a porção maior. O pastor Genovevo assinalou-o: “O apóstolo Sombra.”

Numa tarde, dia de xota e outros baratos, ele sentou-se no chão, no meio da cela, quase sinistro e em posição de lótus. Alarido e perfume de mulher abençoavam as grades. Foi quando as emoções de Sombra forçaram a braguilha e lhe deram alentado volume. Respeitamos o momento, naquilo que exaltava o humano e o sagrado, e pensamos que ele fosse procurar no boi o aconchego para a submissão.

Bem compreendemos isso. Mas ele não se moveu. A verga em litígio com os remendos da bermuda, o Sombra limitou-se a anunciar, Dora está na fila e já passou o portão. Logo entrará pelo corredor da guarda, o sapato de salto alto, o vestido curto, umas transparências em azul, o colar de contas sobre o decote fundo, o umbigo redentor, as unhas cor de sangue e o realce do batom na boca atrevida.

E a visita não era para o Jurandir, surpreendeu-se o Sombra, era para o nosso correligionário Euclides, tão sofrido em coisas de mulher. Coincidências?

Só o Fumaça sabia do registro. Nada como um bom baseado para se manter a cabeça e os segredos no lugar. Dora não despertou nenhum motivo para desconfiança na revista, estremeceu o Sombra. De banho tomado e aprumo na beca, o correligionário Euclides a espera no pavilhão. De mãos dadas, e segurando o alvoroço um do outro, aproximam-se da mesa, junto à porta, com o gavetão das fichas. Meu Deus, geme o perceptivo. Ali, e com falso desinteresse, um guarda confere fotos e documentos. O Sombra cambaleia sobre um abismo, mas se refaz com a onisciência dos drogados. Dora e Euclides carregam o seu tesão em triunfo até a cela. Pelo caminho, ao mesmo tempo inquietos e serenos, aceitam dos desprovidos a homenagem da continência.

Acercam-se do cobertor vertical e o afastam com solicitude. Cuidado, Euclides. O Sombra se firma nos ísquios. Não ponha a mão no fogo por nenhuma xota. Dora merece mais do que ninguém o lençol esticado e o rádio-gravador com a fita de Amado Batista. Já estão nus e abraçados. O Sombra se arrepia quando o ébano rompe os panos e se externa por inteiro.

Desviamos o olhar com nobreza de sentimentos.

Na cama, de coxas abertas e em cima de Euclides, Dora acaricia-se nas ancas e expele um tubo cromado de vinte centímetros. Valente fêmea. Amado Batista verte uma canção incólume. As mãos para trás, sempre arrulhando na face de nosso correligionário, agora com os cabelos no seu peito largo, Dora desatarraxa a tampa do tubo e retira um estilete com punho de madeira. Com precisão, mas ainda amorosamente, ela crava a arma no mamilo esquerdo do homem. Consegue puxar o estilete e arrastar a ponta até o ventre chato. Morde-lhe o sexo. Arrancando o lençol, enquanto Amado Batista arqueja, lança o corpo contra os ladrilhos e o vê sucumbir. Depois, ela se fere na palma de cada mão, risca de leve um joelho, um antebraço, devolve o tubo vazio aos enfiados de origem e inicia o pregão lamentoso da legítima defesa.

Abatido, o Sombra se compõe e pede desculpas.

Desculpamos. Que gritaria é essa?

Meditação

Melhor do que exame de consciência é o exame do prato fundo. Não há baratas na consciência.

“Pelo que das trevas nascem as trevas”, revelou o Sombra.

Na galeria, as sobrancelhas raspadas e uns espantos sob a peruca, por quem chora Baiano So Long? Ele foi chefe de cozinha em Bertioga. Nada como a liberdade para engendrar aberrações.

Adverte o pastor Genovevo:

“A cruz que oprime os nossos ombros nos garante um trecho da santidade eterna. Jesus, meu lindo, não nos desampare na jornada, você que suportou o mesmo suplício no Corcovado.”

Acharam o tubo nos entrados de Dora. Eu levei um pouco de maconha para o meu querido. Isso é crime? Antes de ser arrombador e assaltante, o mano Euclides estagiara numa serralheria da Zona Leste. Eram de seu lavor alguns daqueles estiletes, de alça de balde e empunhadura de pinho.

A penitenciária é maior do que o mundo. Jurandir encontrou Jesus entre os halterofilistas.

Depois de morto, Euclides não perdeu a consideração alheia e as distinções de condenado. Foi enterrado logo. Não feder é a cortesia do defunto.

MAFRA CARBONIERI NASCEU EM BOTUCATU, INTERIOR DE SÃO PAULO, EM 1935. PUBLICOU 11 LIVROS, PELOS QUAIS RECEBEU DIVERSAS DISTINÇÕES E PRÊMIOS NACIONAIS E INTERNACIONAIS. PELA REFORMATÓRIO PUBLICOU “DIÁLOGOS E SERMÕES DE FREI EUSÉBIO DO AMOR PERFEITO”.
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