A Exclusão Transfigurada

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por Juliano Garcia Pessanha

Entre outras coisas eu, Kafka,…

Durante muito tempo eu pretendi nascer para dentro do mundo. Me parece bastante estranho que eu tenha nascido para fora do mundo. Como é possível que, ao nascer, não se nasça para o interior do mundo, mas para uma zona exterior e ilegal? Minha condição é de aposentado prematuro; desde o início desencarregado do serviço do mundo por déficit de algum liame essencial. Em mim o liame era de gelo, amarra logo derretida e desfeita.

Mas eu sempre desejei regressar ao engano dessa aderência. Eu via todo mundo vivendo pelo lado de dentro. Eu também queria viver na ilusão de estar vivendo por dentro. Os homens, quando vivem pelo lado de dentro, quando se encontram na ativa, eles estão tão bem encostados no ente e integrados ao mundo, que são inteiramente identificáveis. Ontem mesmo, lá no bar, com o Werfel, o Max e os outros, eu os via tanto que me assustava!! Eu os percorri um a um e fui soletrando a identidade deles até que chegou a minha vez e eu percebi que seria impossível dar a mim mesmo alguma localização. Levantei-me e fui até o banheiro e pude, então, perceber que o meu umbigo era um ponto de interrogação. E mais, ao olhar melhor e mais detidamente para meu umbigo, notei que nele se abria um buraco sem fim. Cheguei a achar engraçado, pois embora eu odeie metáforas, comparei-me a um queijo suíço cheio de buracos, mas um queijo suíço já quase inteiramente comido e devorado por tantos ratos que só sobrava mesmo um buraco-em-si. Mas é isso. Eu volto para a mesa e eles parecem todos bem enquanto fico o tempo todo roído e atravessado por esse desassossego terrível, por essa pergunta imensa… O Max vive sempre me elogiando, dizendo que sou isso e sou aquilo, mas ele não sabe que eu não passo de um hieróglifo sem sentido e que minha vida é apenas uma mancha congelada, pois eu, ao contrário dele e de suas peripécias e experiências múltiplas, tive apenas a experiência de não ser contemporâneo de nenhuma experiência.

Experiência e acontecimentos se dão do lado de lá da fronteira, do lado dos que nascem para dentro do mundo. Como eu nasci para fora, eu não consigo alcançar o reino das experiências. Numa carta que escrevi para Milena no ano de 1922, eu disse que minha vida é a hesitação antes do nascimento. Nascer para além do sentido biológico, é acolher determinações, é ganhar uma identidade no mundo. Ora, como eu zanzo na zona pré-natal, eu permaneço indeterminado e desreferencializado. O mundo dos nascidos (dos subjetivados) é para mim uma terra estranha onde entro como uma espécie de etnólogo invejoso. Tudo que para eles é um habitual partilhado, para mim é algo estranho a ser decifrado… e aliás, grande parte da interpretose infinita que aparece nos meus textos, deriva daí. Deriva de que devo me esforçar na direção do básico. Existe miséria maior do que ter de se esforçar na direção do básico?? Além disso, minha posição de excluído do mundo e de detido na antecedência do nascimento (no meu diário escrevi “ainda não ter nascido e ser obrigado a passear pelas ruas e a conversar com as pessoas”) é dolorosa, porque há em mim uma imensa saudade da vida não vivida, uma nostalgia da vida desperdiçada. Ah! Que promessa, a vida humana, como eu rondei essa promessa. Como eu a pressenti atrás do véu da exclusão! Muitas vezes achei que um belo dia eu iria acordar e pronto!! Eu estaria dentro da vida, partilhando e participando com os outros. Então eu simplesmente ia estar na mesa das pessoas animadas e eu estaria animado também e não como naquela pensão, naquela noite em que anotei no meu diário: “infinitamente assombrado diante de uma reunião animada de pessoas”. Sempre assombrado, com o rumor das partidas, com os planos de férias daqueles que viajavam; um dia ainda – quanto messianismo! – eu iria sentir aquilo tudo por dentro.

Eu gostaria de sentir afetos diretos e não apenas afetos transcendentais. Explico melhor: eu gostaria de dizer eu gosto disso, eu sinto isso e não estar espantado ou assustado por sentir isso ou aquilo. Quem vive na antecâmara do destino tem afetos transcendentais, não olha a caneta e segue em frente… mas fica assombrado que a caneta seja… daí também que nos meus textos haja a descrição hiper-minuciosa de rostos e pessoas. Quem reside no senso-comum não precisa e nem faria minhas descrições. Minhas descrições são de alguém que não pertence e nem mora na representação partilhada, mas no assombro da aparição. Se descrevo uma mulher não é porque estou eroticamente encantado com sua forma, mas porque estou ontologicamente perplexo de que ela exista e não antes o nada (segundo o repertório de um filósofo alemão que ficou conhecido logo depois que eu morri). Posso encurtar essa explicação dizendo que estar na antecedência do nascimento torna teu olhar um portal do deslumbramento. Outro dia, caminhando na calçada, vi um casal passeando com dois cães, um grande do tipo Schnauzer e outro pequenino da raça Poodle. Subitamente senti que aqueles animais andavam, se moviam: eram dois casais, um de bípedes e um de quadrúpedes. Iam esvoaçantes na calçada e eu fiquei tão atingido e maravilhado que não parava mais de olhá-los. Meu olhar era tão intenso que a mulher parou indignada e, logo em seguida, seu marido também passou a me olhar. Eles estavam meio desconcertados pelo modo como eu os via; talvez eu os tenha visto demais…

Minha vida é um casulo transparente e inacessível. A ferida que não consta dos mapas dermatológicos. A sinapse escondida que não consta da psiquiatria. Sei que nenhuma metafísica me apanhará. Ela é alérgica ao buraco e à ausência. No fundo, ninguém quer saber da notícia que divulgo e que carrego. Num mundo pavimentado não se quer escutar ouvir falar de buraco e de rachaduras! Mas eu divulguei a notícia com tamanho ardor que eles acabaram por incluir-me em sua comunidade. Para isso inventaram até uma nova profissão: “anunciador de buracos” e escritor. Eu fiquei muito feliz até que notei que o meu rosto estava ficando pavimentado e eu tive de fugir da comunidade que me acolhera. Voltei para dentro do buraco e me calei.

Ser um habitante do buraco é deslizar perpetuamente no tempo da inconsciência do exílio. A sombra da morte, a sombra da ausência é onipresente. Se penso no Max, por exemplo, ele se move na consistência e no tempo do amparo no mundo. Para alguém como ele, alguém que tem lugar, a morte, o impossível e a dor aparecem sempre mediados pelo mundo; são ameaças e medos incrustrados que pipocam cá ou lá em objetos ou situações (uma espécie de sombra no objeto): ir a um médico, ficar doente e descobrir uma pinta debaixo dos pés, etc. são pequenas frestas e rachaduras para o horror, mas a base é estar-em-casa-no-mundo. Ao contrário, o homem do desamparo, aquele que se encontra, como eu, imantado pelo impossível, este é olhado direta e constantemente pela morte. Não há trégua nem esquecimento. Está engolido no espaço da rachadura. A casa é um além onde não se chega. Fernando Pessoa – um escritor português que morreu 11 anos depois de mim, ele morreu em 35 com 46 anos de idade e eu em 24 com 41 anos, ele de cirrose hepática e eu de tuberculose, mas ambos estávamos bastante em casa na hora de morrer – escreveu no Livro do Desassossego que a vida é estar numa estalagem esperando a diligência do abismo. Então, se é mesmo assim, enquanto os homens como Max, os homens-do-mundo, entram para o hotel e desfazem as malas – e vão até o salão conversar, tendo inclusive fechado as janelas para não escutar o apito do trem da morte – o homem do desamparo nem chega a cruzar a porta do hotel. Fica em pé, na estação, sem desfazer as malas. Sabe que o trem já está apitando…

 (trecho do texto “A exclusão transfigurada”, publicado originalmente no livro Instabilidade Perpétua. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009, p. 43-7)

JULIANO GARCIA PESSANHA É ESCRITOR E PROFESSOR, FORMOU-SE EM DIREITO E FILOSOFIA, É MESTRE EM PSICOLOGIA E DOUTORANDO EM FILOSOFIA PELA USP. DIRIGE OFICINAS DE ESCRITA, E É AUTOR DA TRILOGIA: SABEDORIA DO NUNCA (1999) – VENCEDOR DO PRÊMIO NASCENTE, PROMOVIDO PELA ABRIL/USP -, IGNORÂNCIA DO SEMPRE (2000) E CERTEZA DO AGORA (2002) E DO LIVRO DE CONTOS/ENSAIOS INSTABILIDADE PERPÉTUA (2009) TODOS PUBLICADOS PELA ATELIÊ EDITORIAL.
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