Dor, doença e loucura:

abram as asas sobre nós.

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por Marcelo Mirisola

“Tudo depende de quem está doente, de quem está louco, epilético, paralítico – uma pessoa medianamente tola, em cujo caso a doença prescinde do aspecto intelectual ou cultural, ou um Nietzsche, um Dostoiévski (…)” O escritor e sua Missão, Thomas Mann (ed. Zahar).

Um idiota doente é a mesma coisa que um idiota com saúde. Talvez o idiota com saúde seja mais nocivo, pois ele é a expressão da idiotia em si, no seu esplendor equino e engajado. Com certeza, mais devastador porque ele tem o poder de arregimentar uma legião de idiotas que jogam mãozinhas pro ar, lotam estádios de futebol, arenas de vale-tudo e igrejas caça-níqueis. Ele é pior que a doença.

Idiotas saudáveis ocupam espaço. O que a doença faz, muito lenta e modestamente, diga-se de passagem… é corrigi-los, tirando-os de circulação. O problema é que para cada Marrone fora de combate aparecem dezenas de Luans Santana e Restarts. A propósito. Há 30 anos Faustão promove carnificinas na Rede Globo, todo domingo. Perto do poder de destruição dessa gente que faz merchandising de financeira, e produzem gerações de cretinos, os ditadores árabes e africanos não têm relevância nem pra vender mariola na Cinelândia.

Penso nos idiotas, faço umas contas e creio que nossa medicina está equivocada quando trabalha no sentido de prolongar a vida das pessoas aqui nesse vale de lágrimas que chamamos nosso lar. Se a ciência realmente fosse avançada, trabalharia no sentido contrário: diminuiria o tempo de sofrimento do ser humano sobre a face da terra, viveríamos menos e sem ressaca, e aproveitaríamos nosso tempo livre para, entre outras coisas, beijar na boca e ignorar a dança dos famosos. Esses médicos que falam em “qualidade de vida” deviam ser obrigados a ler Dostoiévski, Nietzsche e Thomas Mann que, no ensaio impecável e datado (explico na sequência) Dostoiévski, com moderação, diz: “A vida não é suave com as pessoas e podemos dizer que ela prefere mil vezes a doença criativa, doença que doa genialidade, doença que enfrentará os obstáculos a cavalo, saltando de rocha em rocha com audaz embriaguez, à saúde que anda a pé”.

Ou seja, passados quase 60 anos da publicação desse ensaio, a vida continua avançando doente, maligna, corrupta. A diferença é que, na época em que Mann especulou sobre as doenças de Nietzsche e Dostoiésvski, a saúde dos idiotas andava a pé. Hoje, a doença cavalga a vida e o gênio, embora continue sobrevoando abismos infernais, é que anda a pé – enquanto isso, a vida prossegue, digamos, “prossegue” e continua não fazendo qualquer distinção moral entre saúde e doença. Quem faz essa distinção – pasmem – são os idiotas e as nutricionistas de plantão. A ponto de um idiota doente, hoje, ser mais reverberante que um gênio: tanto faz se esse gênio tem a saúde zerada ou se traz consigo um câncer de pâncreas.

Thomas Mann não teria chance com Pedro Bial. Os idiotas tomaram a insanidade de assalto, eles discorrem sobre vinhos e barris de carvalho, fazem lipoaspiração diante das câmeras e dão receitas de feijoada de soja na internet. As auras, as iluminações e os élans, a crucificação e o martírio também foram pro beleléu. Na verdade, depois que os idiotas ocuparam todos os espaços, valha-me, Nelson Rodrigues!, urge inventar um novo termo para denominá-los. Gênios, Jobs, qualquer coisa assim…

Nem santo Agostinho, nem Bispo do Rosário. Outro dia li um ensaio de Maria Rita Kehl em que ela analisava o planeta Melancholia de Lars Von Trier, a psicanalista afirma que, em tempos de Visa e Mastercard, não existe mais espaço e nem opção para a melancolia romântica, algo que – coincidentemente – nos remete à doença e à loucura de Dostoiévski estudadas por Mann em meados do século passado, mais precisamente em julho de 1945. Infelizmente, o autor de Os Buddenbrooks apostou suas fichas no poder de subversão do gênio, e quebrou a cara. Perdeu. Perdemos. Impossível hoje, diz Rita Kehl, cogitar “num flâneur a recolher restos de um mundo em ruínas pelas ruas de uma grande cidade (Baudelaire) de modo a compor um monumento poético para fazer face à barbárie”. No alvo. Consequentemente a dor criadora, a loucura e a doença que Mann cogitava como grandes heranças de Dostoiévski e Nietsche, hoje, não fariam sentido nem pra fazer piada sem graça em show de stand-up.

Maria Rita Kehl, psicanalista freudiana, diz com todas as letras: “o que se perdeu na transição efetuada pela psicanálise foi o valor criativo que se atribuía ao melancólico, da antiguidade ao romantismo (…) onde o melancólico pré-moderno, em seus momentos de euforia, era dado a expansões de imaginação poética, hoje a mania leva os pacientes ‘bipolares’ a torrar dinheiro no cartão de crédito”. E arremata: “o consumo é o ato que expressa os atuais clientes da psicofarmacologia, apartados da potência criadora que sua inadaptação ao mundo poderia lhes conferir”.

Não só o Visa e o Mastercard substituíram e ocuparam o oco dentro de nossos peitos, eu acredito que devam existir outros fatores que corroboraram para a falência múltipla de nossas alminhas, ainda não sei bem quando as asas se quebraram, nem onde nem como houve a fratura e a queda (aceito sugestões e chutes, escrevam, reclamem e mandem e-mails), mas creio, sinceramente, que a doença, a dor e a loucura estão fazendo muita falta neste lugar que denominamos “nosso mundo”, vasto mundo… que se se chamasse Raimundo seria apenas uma rima, jamais uma solução.

Marcelo Mirisola , formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É autor de “Proibidão” (Editora Demônio Negro), “O herói devolvido”, “Bangalô” e “O azul do filho morto” (os três pela Ed. 34) e “Joana a contragosto” (Record), “O cristo empalado” (Oito e meio), entre outros. Atualmente é colunista na Revista Cult e no jornal Congresso em Foco.
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