Memória Costeira

por Rennan Martens

People on Brighton Beach, Brooklyn, New York City, 1910-1915

Fui uma criança muito curiosa. Durante as tardes que costumava passar com os meus avós, em algum momento eu sempre começava a escavar a infinidade de caixas e gavetas que se escondiam pela casa. Todo tipo de objeto me interessava, desde que parecesse de outra época, relíquias de tempos anteriores a mim. Gostava de imaginar, por exemplo, a primeira vez que determinado terno fora usado por meu avô, que determinado livro fora lido. Pensava nos jantares onde os talheres que minha avó guardava numa cristaleira de mogno foram estreados. Imaginava cada convidado, suas conversas, as roupas. Gradualmente essas e outras imagens, memórias minhas e dos outros, começariam a deixar sua marca na minha imaginação, e pouco me importava em distinguir realidade de ficção, Se podia lembrar era porque tinha acontecido.

Dentre todos os objetos espalhados pela casa, as caixas de fotografias eram onde eu gastava mais tempo. Havia uma imagem que gostava muito onde era possível ver meus avós na praia. Ela de chapéu, obstinada e com sorriso firme. Ele de cabelos emplastrados e jogados para trás, a postura solene e confiante. Ao fundo a linha do oceano se estendia numa amálgama de ondulante relevo e espuma. Era possível ouvir o barulho do mar, sentir o calor do sol derramado sobre a pele nas primeiras horas da manhã, o cheiro da água salubre carregado por uma brisa fresca, a textura da areia preenchendo os espaços entre os dedos dos pés. Hoje, quando penso nos verões que eu mesmo passei no litoral, misturo em minha memória as lembranças do que de fato vivi com as que em mim nasceram por intermédio daquela foto  – esse é um truque que o teatro da memória parece nos pregar o tempo todo. Engraçado é pensar como aquela imagem jamais me pareceu retratar algo que se extinguiu. Pelo contrário. Era viva, brilhava como mercúrio. Para mim aquela cena acontecia no mesmo momento em que eu me encontrava. Passado e presente voavam leves (e juntos) como borboletas. Era possível capturá-las em uma rede, examinar seus detalhes. Vez ou outra essas borboletas se chocariam e a mágica estaria feita; você juraria que o homem de cabelos emplastrados piscara ou movera os lábios balbuciando algum segredo ou que a senhora coadjuvante, ao fundo da fotografia, foi vista por você poucas horas antes, entrando na padaria.

A verdade é que acabei lembrando de tudo isso graças ao documentário From The Sea to the Land Beyond: Britain’s Coast on Film, dirigido pela anglo-argentina Penny Woolcock. Com um trabalho preciso de recorte e justaposição, Woolcock reuniu quase um século inteiro da vida marítima britânica em um único filme, utilizando-se de fragmentos do arquivo público do BFI (Instituto Britânico de Filmes) para tecer uma narrativa que se estende da beleza dos verões do começo do século passado aos horrores das guerras mundias. É possível observar a histeria dos famosos feriados na cidade litorânea de Blackpool, ver procissões inteiras sobre as areias, danças, música, carnavais, competições de salto e de natação, a ascensão e a queda da pesca costeira, a exploração do petróleo e os bombardeios nas épocas de conflito. From The Sea to the Land Beyond é um convite para um mundo que para nós, brasileiros, é desconhecido. Mas a maneira como as imagens foram arranjadas e a beleza das cenas são capazes de nos trazer à tona um turbilhão de emoções desconhecidas. A combinação de cenas evocativas, muitas vezes em câmera lenta, com a trilha sonora etérea escrita pela banda inglesa British Sea Power, alcança os espaços mais escondidos de nossas reminiscências. E então, entre cenas e cortes, uma lembrança chega até você, uma lembrança sua ou de outro (isso pouco importa). Você se pega pensando como são curiosas as pessoas nas fotografias e nos filmes antigos, como nos intrigam, porque parecem reunir em si morte e vida, num caleidoscópio de existires sobrepostos. Lá estão eles nas imagens, sem dúvida estão vivos. Mas se examinarmos bem, seus olhos parecem delatá-los, eles nos contam toda a verdade; não estou mais aqui, dizem – e no entanto, estão.

E já que esse é um espaço dedicado aos livros, aproveito para dizer que na areia, as pegadas da literatura e da memória costumam rimar. Ambos nos maravilham, assombram e lidam com um desejo que é literário por excelência; vencer a morte. A diferença é que a memória (além de ser matéria prima para a literatura) não nos deixa escolher e esquematizar esteticamente. Na memória as imagens nos tomam de assalto muitas vezes de maneira desordenada; podemos ouvir os ecos das vozes, mas não podemos escolher o volume e a intensidade de cada um deles. A literatura, por sua vez, nos dá a capacidade de escolha, nos deixa recortar e colar para compor algo que toque outra pessoa, que chegue ao outro por meio de um encantamento.

From The Sea to the Land Beyond explora o mistério que guardamos nas regiões recônditas de nossas próprias recordações e nos dá o sabor agridoce que só a justaposição de melancolia com uma pulsante vontade de viver pode proporcionar.

Um trecho:

rennan martens é cantor-compositor, editor de literatura e um dos fundadores da editora reformatório. sua estreia na ficção acontecerá em 2014.
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