Rubenira

por Marcelo Nocelli

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Rubenira tem medo de gente.

Talvez por isso ainda seja bibliotecária.

Rubenira tem a mesma cor e o mesmo cheiro dos miolos dos volumes antigos, os de capa dura. Lombadas de difícil identificação.

Sempre gostou de ficar sozinha. Desde criança. Não teve nem mesmo amigos imaginários. Só. Brincava sozinha. Chorava sozinha. Machucava sozinha. Curava sozinha.

Na adolescência, diferente da maioria, não procurou se firmar em grupos. Nunca precisou de companhia. Não se sentia igual aos outros, tampouco diferente. Era só. Gostava da solidão. Sempre gostou.

Quando descobriu a fibromialgia, no início da faculdade, decidiu que nunca teria um namorado, muito menos relações sexuais. Não quereria mais dores. Leu em um livro de medicina que a dor, em pontos específicos, sob pressão, pode aumentar muito em pacientes cuja doença tenha se desenvolvido por parestesias. A parte que falava sobre o sistema dopaminérgico ela não leu. Não gostava de ouvir falar em adrenalina. Não gosta de sensações. Nem de sentimentos.

Tudo que sabe da vida, Rubenira aprendeu nos livros. Mesmo durante o período de faculdade. As aulas superficiais não eram, para ela, fonte de aprendizagem e conhecimento. Tempo, Rubenira sempre teve de sobra. Raras vezes alguém entra na biblioteca. E quando isso acontece, Rubenira enrubesce, finge procurar algo nas estantes, fazer uma anotação importante, qualquer coisa que possa ajudar no intuito de se distanciar do outro e evitar um possível “oi, tudo bem?”. Um aperto de mãos nem pensar, horas no banheiro em terríveis e doloridas abluções. Um beijo no rosto – isso poderia ser fatal.

Rubenira sempre soube que ficar sozinha era a melhor maneira de aprender, refletir, se divertir, se entristecer e se curar. Ler, ação que ela mais gosta de praticar na vida, também exige privacidade. Ler na companhia de alguém, mesmo que apenas no mesmo ambiente, é terrível, desconcentra, atrapalha, torna o texto não entendível. Chega a doer fisicamente. Dispersa e dispensa atenção. Por isso, o silêncio piedoso da biblioteca é, para Rubenira, tão importante. Ela se apegou tanto a solidão e a paz, que já não consegue imaginar-se em um pandemônio.  

A mente de Rubenira é um turbilhão de pensamentos. Viver só o tempo todo é pensar o tempo todo. Enquanto o cérebro trabalha os pensamentos, volta-se para o seu próprio código e não esconde sua vontade de si mesmo, o que faz Rubenira sentir-se sempre melhor. Ter total controle sobre suas intenções e volúpias, sem que ninguém saiba, faz irradiar segurança por ser senhora de cada segundo da sua vida. Um universo único e maravilhoso. Rubenira se vê como um desconhecido ponto minúsculo qualquer do planeta, pensamento que a faz sentir perigosamente bem. Sem conversas banais, risadas sem motivo, sem tristeza compartilhada. Quando se ri só, se ri verdadeiramente e por algo que, realmente, vale a pena. Não se desperdiça riso quando se está sozinho. Todas as lágrimas são verdadeiras. E o pensamento flui em paz, sem intromissões.

Mas, diferente do que se possa imaginar, o corpo é o que se acostuma primeiro a paz. E o que mais sente a necessidade do silêncio e da solidão. O corpo se acostuma à postura solitária, ao ritmo das necessidades mentais e fisiológicas (Rubenira nunca iria a um banheiro se houvesse gente por perto, assim como não come quando há alguém olhando). O corpo também se acostuma à sensação de descanso, longe do cansaço que outras pessoas podem gerar. Um psicanalista, amigo da mãe de Rubenira, sugeriu um gato ou mesmo um cachorro como companhia. Rubenira não acatou a sugestão. Sua solidão é opcional. Solitude. Além do mais, animais não pensam. Rubenira não consegue conceber seres vivos que não pensam.

Rubenira gosta mesmo é de viver intensamente. E sabe que isso só é possível sozinha. Não que ela não deseje o bem ao próximo, nem que não queira o bem da humanidade, a igualdade, os direitos humanos ou a paz na Síria. Rubenira é a favor da causa gay, da descriminalização da maconha e do aborto. Ela também se preocupa com a educação do país e com a saúde pública. (Com a corrupção ela ainda não definiu um pensamento a respeito). Mas, Rubenira, sabe, por si só, que cada um é único e tem direito a escolhas. A dela é viver sozinha. Ela não precisa do outro. Não quer dizer que não se importa com ele. Apenas tenta não se meter na vida alheia. Para Rubenira, cada um é único, e isso quer dizer que cada um tem o direito e a responsabilidade sobre suas escolhas. Rubenira odeia quando lê o termo “umbiguista”, não concorda com ele. Pensa que se realmente cada um olhasse apenas para o próprio umbigo, o mundo seria poupado da maioria dos conflitos; uma grande barriga sorridente e bonachona.

Tempos atrás, Rubenira descobriu em um livro um instrumento antigo, usado, principalmente, como equipamento de localização na navegação, mas que também tinha outras utilidades em terra; calcular a hora (ou período) do dia, calcular altura ou profundidade, resolver problemas geométricos e, principalmente, determinar a posição dos astros no céu. Rubenira sempre teve fotos de astros coladas em seu guarda-roupa. Corpos celestes sempre a atraíram. Imagens de planetas e asteroides a encantavam. Era bom abrir o armário pela manhã, com o sol quente ardendo lá fora, e poder ver a lua, mesmo que em uma foto recortada de revista. Sabia que a lua desconhecia a sua existência, mas ela conhecia detalhes da lua. Sua intimidade. Sabia que, de alguma maneira, a lua regia sua vida. Os astros. Os signos. Os livros. Por tudo isso, o Astrolábio se mostrou como um objeto de encantamento.

Rubenira passou anos estudando o Astrolábio. Começou a fabricar, artesanalmente, Astrolábios. Estudava o céu de um determinado ponto de vista e fazia os desenhos manualmente; as estrelas, a geometria. O gabinete em madeira de boa qualidade, o disco e a régua em acrílico. Chegou a fazer um deles em ferro maciço. Fez astrolábios para o céu de São Paulo. Depois para o céu de outras pequenas cidades que visitava sozinha, durante os dias de folga na biblioteca. Cidades próximas, que pudesse ir de carro, sem companhia. Astrolábios maravilhosos que nunca foram, e nunca serão usados. Objetos que serão admirados por Rubenira, sem perguntas, sem respostas, porque o manejo do equipamento, para medidas precisas, como a maioria das coisas, exige a participação de duas ou mais pessoas.

MARCELO NOCELLI, NASCEU EM 1973, EM SÃO PAULO, CIDADE ONDE MORA. É FORMADO EM LETRAS. COMO ESCRITOR, ESTREOU EM 2007 COM O ROMANCE “O ESPÚRIO”. EM 2009 PUBLICOU O ROMANCE POLICIAL “O CORIFEU ASSASSINO” (TRADUZIDO PARA O ITALIANO).  TEM DIVERSOS CONTOS E CRÔNICAS PUBLICADAS EM REVISTAS E SITES ESPECIALIZADOS. PELA REFORMATÓRIO PUBLICOU “REMINISCÊNCIAS” (2013).
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