O Preço dos Livros

por Marcelo Nocelli

marce

Há algumas semanas, recebi um e-mail de uma jornalista perguntando qual a minha opinião quanto aos altos preços dos livros no Brasil e sobre a falta do hábito da leitura entre os brasileiros devido a esses valores.

Segue minha resposta:

Meu nome é Marcelo Nocelli, sou Secretário Geral da UBE – União Brasileira de Escritores.

Acredito que, dentre tantos escritores, as opiniões a respeito divergem bastante sobre o assunto e, ao menos, durante esta gestão vigente, da qual participo, é algo que nunca foi posto em pauta, por isso, não poderia responder em nome da associação e de seus associados, mas posso emitir minha opinião a respeito:

Sou escritor e editor. Antes disso fui (sou) técnico gráfico por quase 20 anos. E antes de tudo isso, sou leitor-consumidor de livros. E não acho que o livro no Brasil é caro.

Como técnico gráfico, sei que há duas maneiras de se imprimir um livro: em impressão digital (direta) que possibilita pequenas tiragens (a partir de um único exemplar). Uma tecnologia que surgiu no final dos anos 90 e que exige, além de muitos equipamentos de última geração, insumos descartáveis e caros, com uma baixa produtividade: 4.000/hora (folhas nesse caso quer dizer 8 páginas de um livro), o que torna a unidade mais cara, porém, possibilitam essas pequenas tiragens. E a impressão offset (indireta), usado no mundo desde 1905. Um sistema que possibilita altas tiragens (acima de 500 exemplares) e que, conforme se aumenta a tiragem, mais barato fica a unidade, já que a matriz (e todo o processo) é única para fazer 1 ou 100.000 livros, a uma produção de até 15.000/hora (folhas nesse caso quer dizer 32 páginas de um livro).

Como editor poderia dizer que os custos da produção são altos: um bom diagramador, um bom capista, bons revisores (no mínimo dois) o papel (que de boa qualidade é caro) e a impressão que também é cara. Fora o tempo para se editar/publicar um livro com qualidade gráfica e literária. Também há o repasse das livrarias (comissão) que varia de 30% a 50% do preço de capa. Tudo isso pago pela editora. Se considerar que a maioria dos livros publicados no Brasil (e são quase 5.000 todos os anos) não vende o suficiente para se pagar, diria que o preço final do livro é até muito barato.

Como escritor que, normalmente, recebe 10% do preço de capa por exemplar vendido como pagamento de direitos autorais, e considerando que os livros vendem pouco, diria, também, que o livro no Brasil não é caro. 95% dos autores brasileiros não conseguem viver exclusivamente de direitos autorais.

E como leitor-consumidor de livros, continuo afirmando que livro no Brasil não é caro. Se tomarmos como exemplo um “boom literário” lançado mundialmente: A culpa é das estrelas do americano John Green, nos Estados Unidos – país de origem do livro – o exemplar custa em média U$ 12 – o que daria hoje algo em torno de R$ 26,00. Aqui no Brasil, o preço médio é de R$ 30,00. O problema é que a maioria das pessoas não tem coragem de pagar R$ 35,00 (preço médio) em um livro. Se falarmos de alguns produtos considerados como paixões nacionais; o futebol, por exemplo, um ingresso para um jogo do campeonato paulista custa R$ 60,00. Para assistir a 90 minutos de uma partida. Uma cerveja no bar custa R$ 7,00. É certo que quatro pessoas consumam cinco cervejas (valor de um livro) em duas ou três horas. Os estádios estão sempre lotados, os bares nem se fala. Vejo garotos office-boys que não se importam em comprometer boa parte de seus vencimentos em prestações para comprar um tênis da moda e de valores exorbitantes, mas que não têm coragem de comprar um livro por ano. Aquele aluno que é obrigado a comprar um livro para escola, também acha sempre caro, mas o caderno, a agenda, o estojo, esses tem que ser de marca da moda com capas legais, e não importa o preço.

E se falarmos naqueles que realmente não podem comprar um livro, os que não dispõem de dinheiro ou aqueles que não preteririam uma noite de bar por um livro, há as bibliotecas que estão sempre vazias e com milhares de livros disponíveis gratuitamente para leitura. O bom e verdadeiro leitor se preocupa muito mais se o livro é bom do que se é barato. Para este leitor livro ruim é sempre caro, afinal é uma aquisição para a vida toda.

Isso porque não falamos dos livros digitais (os e-books) que atualmente custam entre 30 a 70% do livro impresso. Mais barato.

O nosso maior problema não é o preço dos livros, mas sim a falta de leitores. Assumir que o brasileiro não cultiva o hábito da leitura é muito mais verdadeiro do que atribuir a falta de leitura aos preços dos livros. Oferta há aos montes, quem sabe, se houvesse maior procura pelos livros, esta demanda não seria melhor e ainda mais barata para todos?

MARCELO NOCELLI, NASCEU EM 1973, EM SÃO PAULO, CIDADE ONDE MORA. É FORMADO EM LETRAS. COMO ESCRITOR, ESTREOU EM 2007 COM O ROMANCE “O ESPÚRIO”. EM 2009 PUBLICOU O ROMANCE POLICIAL “O CORIFEU ASSASSINO” (TRADUZIDO PARA O ITALIANO).  TEM DIVERSOS CONTOS E CRÔNICAS PUBLICADAS EM REVISTAS E SITES ESPECIALIZADOS. PELA REFORMATÓRIO PUBLICOU “REMINISCÊNCIAS” (2013).
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