Jazigo Perpétuo

por Mafra Carbonieri

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Desenterrada, o vento carregou para longe as feições da morta.

Orso Cremonesi

Cortava-se o queijo na mesa nua. Era de osso o cabo da faca. De madrugada, eu estudava na cozinha e a família se recolhia ao cansaço. O bule de ágata, o café nunca esfriava na chapa do fogão à lenha. Minha mãe não permitia que o picumã se acumulasse na treliça do forro. Mas numa noite de vento, de afugentar o sossego e as telhas, caiu um pó fuliginoso sobre A Idade da Fé, um dos volumes de Will Durant.

Estando os tios na sala do piano, de colete e botina de elástico, por que demora meu pai a descer ao porão? Gosto de vê-lo despir a garrafa de sua teia de aranha, erguê-la contra a claridade da porta e esfregar do gargalo ao bojo um trapo de estopa. Já chegaram todos, menos o tinto. A tia Mariana não trouxe o violoncelo e ainda não ofereceu a ninguém as suas pastilhas de menta. Vejo véus negros e missais de madrepérola. Pelos cantos, as tias trocam silêncio. Vamos ao cemitério. Mas, se saiu no rádio eu não ouvi. Alguém morreu? Responde-me um pigarro anônimo, e em seguida alguém fala um nome, Elisa Canova.

Minha avó, Elisa Canova, viveu só trinta e oito anos e deixou esta fotografia. Basta abrir a Bíbliado quarto, o vulto de minha avó aparece na janela, a mão no parapeito rachado, aquilo na parede é o estrago da Revolução de 1924 e a cada ano Elisa Canova mais se apaga. Não conheci minha avó. Sua imagem não me diz nada.

Vamos ao cemitério. As tias, só as mais velhas, uma de bengala e outra mastigando a gengiva, ocupam o Ford de tio Miúdo. Devagar, os demais seguem a pé: minha mãe de meio- luto: meu pai de chapéu de feltro. Tio Vicente desistiu do fumo e da palha. Tio Mário era barítono, mas sempre o acusavam de tenor. Quase um cantochão, ele declama as orações de nosso medo. Carregam todos uma intensidade que me perturba.

Imagine. A família vai desenterrar Elisa Canova.

Ao redor da campa, sob a aragem que verga de leve os ciprestes, aqueles homens parecem pedreiros com lenço no nariz. Grotescos e rituais, seus gestos revelam ao mesmo tempo o sagrado e a heresia. Escondido atrás de meu pai, enquanto o vento faz retinir as placas do cemitério, não consigo desviar os olhos, surgem no fundo da cova os restos do caixão. Só eu, ou todos se esqueceram de respirar?

Afastam o que sobrou da tampa.

Em torno o ar trêmulo, a morte não atingira as mãos e o rosto de minha avó. Era de terra o vestido e de ferrugem os cabelos. Porém, um pergaminho pálido, colando-se aos ossos, mantinha intactos a lembrança e o mistério de Elisa Canova, no sono, nos dedos, no colo, e comovidamente, nas feições não duma avó, mas duma tia desconhecida e próxima, apavorante e bela.

Durou pouco a aparição.

Logo o vento da serra desfez a pele seca de minha avó até desmanchar lhe o semblante e as mãos postas. Então o esqueleto de repente. Meu Deus. Seria preciso morrer de novo? Os gritos da família ficaram presos no respeito e na religião.

Ninguém percebeu como surgiu na campa a pequena urna de cedro. Um coveiro depositou ali os ossos. De cabeça baixa caminhamos para o jazigo perpétuo.

MAFRA CARBONIERI NASCEU EM BOTUCATU, INTERIOR DE SÃO PAULO, EM 1935. PUBLICOU 11 LIVROS, PELOS QUAIS RECEBEU DIVERSAS DISTINÇÕES E PRÊMIOS NACIONAIS E INTERNACIONAIS. PELA REFORMATÓRIO PUBLICOU “DIÁLOGOS E SERMÕES DE FREI EUSÉBIO DO AMOR PERFEITO”.
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