Regra e Contrário

por Thais Lancman

mesa

Quando surgiram as primeiras análises da geração Y, acho que foi na época em que o filme A Rede Social (aquele do Facebook) foi lançado, eu não senti que me identificava. Devia, por conta da idade, mas não me via como um daqueles jovens recém formados ou no fim da faculdade, querendo não apenas um trabalho, mas algo que realizasse, desse tesão.

Naquela época, eu tinha um trabalho que às vezes eu gostava, geralmente era indiferente, e odiei poucas vezes. Me agradava o dinheiro. E eu já amava escrever. Antes disso, eu tinha decidido tirar um ano sabático, o que nunca aconteceu. Uma amiga me indicou a vaga, os planos de mudar de cidade foram para o saco e volto esse texto para o ponto de onde comecei.

O que eu queria dizer para todas as pessoas em dead end jobs é que a coisa é mais complexa do que pintam por aí em vídeos bonitos e frases como aquela de encontrar um trabalho que você ama e nunca mais trabalhará um dia na sua vida. Vou tentar explicar.

Quando eu trabalhava, saía às quatro da tarde. E daquele horário em diante, eu fazia aula de dança, ia correr no parque, via exposições, filmes, encontrava amigos, escrevi um livro, bebia cerveja. Notou que no meio tem o escrever um livro? E que lá em cima eu disse que escrever é o que eu amo fazer? Pois bem.

Por três anos da minha vida, essa conta fechou: trabalhar até certo horário, viver como eu quisesse o resto do tempo. Ninguém precisa ter medo de gostar de ter algum dinheiro, mais ou menos. O que não dá é para apostar em fórmulas prontas e extremas de se vender totalmente ou passar fome em prol de uma paixão. Eu não queria nem um nem outro. Felizes coincidências podem acontecer? Podem, e se assim é, bom pra você, mas às vezes parece que o papo de ser feliz passa tratorando quem só quer ficar, por assim dizer, de boa.

No caso de quem quer fazer algo criativo, vem com isso o perigo de se render a uma estética que venda. E serve não só para literatura, como música, artes visuais. Quer um exemplo bem claro? Ilustração.

A verdade é que todo mundo tem um preço, se vende em maior ou menor escala. E a minha decisão, pelo amor imenso que eu tenho pela literatura, é de vender qualquer outra coisa antes dela. Eu vendia meu tempo das nove às quatro para manter a literatura intacta, fluindo. E o dinheiro que vinha do trabalho me deixava escrever tranquila, bem alimentada e confortável.

Eu acho que, em determinadas situações, trabalhar com o que você ama é perigoso. Se eu tivesse seguido a lógica de trabalhar com o que eu amo, estaria preocupada em fazer uma literatura que vende (existe?) ou então escrever qualquer coisa, bula de remédio que fosse, porque é um ato físico que me lembra aquele que me realiza. Na expectativa de ir me aproximando do que eu considero um ideal. O caminho tortuoso me pareceu, também, mais agradável: viver como que uma vida dupla, com uma realidade alimentando a outra.

Até segunda ordem, eu pretendo não ganhar um centavo escrevendo ficção, se precisar até gasto umas economias com ela, e qualquer preço que eu pago para escrever livre acho que é justo. Vivo uma situação estranha, em que escrever não é nem trabalho nem lazer, até porque não me traz um ganho financeiro e nem sempre é prazeroso. Se alguém souber uma palavra para isso, me conte.

Tem mais (opa, bônus!): agora que eu supostamente teria todo o tempo do mundo para pensar em literatura, seja produzindo ou para o meu mestrado, eu não faço isso. Continuo no mesmo ritmo de antes. Nos dias que eu não escrevia, eu ainda não escrevo, só que fico curtindo o Netflix. O que eu quero dizer é que jogar tudo para o alto é realmente como a expressão diz: você joga e enquanto o confete está voando tudo é diferente. Depois cai e a vida segue. Talvez seja o caso de colocar menos intensidade em elementos superficiais – trabalho, casa, meio de transporte – e mudar o foco para uma transformação mais profunda, deixando as outras coisas para quando não couber mais em si.

Por fim, acho que cada um tem que ver o seu preço e acompanhar as suas flutuações. Tem que tentar conhecer suas paixões, como elas funcionam e cuidar delas sem medo de fazer escolhas que te tornem uma pessoa peculiar. Escrevo tudo isso quase que em tempo real, enquanto passo por todo esse processo, e a vida é boa quando você não se identifica com nada a não ser com você mesmo.

THAIS LANCMAN É FORMADA EM JORNALISMO PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, ATUALMENTE REALIZA MESTRADO EM LETRAS NA MESMA INSTITUIÇÃO. SEU LIVRO DE ESTREIA, “palito de fosfeno” foi lançado em maio de 2014 pela editora reformatório .
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