Autoficção: Notas

por Thais Lancman

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crédito da foto: girl/afraid, creative commons
título original do texto: notas sobre um projeto de autoficção.

 

  1. Duas síndromes pós-modernas:
    1. Síndrome do Impostor, a eterna sensação de ser uma fraude prestes a ser desmascarado
    2. Uma cujo nome esqueci, mas que se refere a quando você fala de um projeto e falar dele emite ao seu cérebro a ideia de que a tarefa já foi cumprida, logo você perde o estímulo e o projeto morre.
  2. “Pra que serve executar projetos, se o projeto, em si, já é fruição suficiente?”, Baudelaire, em O Spleen de Paris.
  3. O projeto feto, o projeto natimorto: transformar um naco muito doído da memória em literatura. Primeira pessoa, sem pseudônimos.
  4. Justificativas possíveis: falta de ideias, desejo de vingança, utilitarismo.
  5. Nunca fiz terapia. Já tive vontade, já me sugeriram, mas tinha (tenho) medo de que, resolvendo tudo no consultório (possível?), não teria mais por que escrever.
  6. A não ser uma cura narrativa para a Síndrome do Impostor: uma história que de certa forma poderia ser provada. Poderia se chamar Síndrome de Mythbusters.
  7. Saul Bellow fez muita terapia e autoficção. Eu não sou Saul Bellow.
  8. Vira e mexe meu raciocínio me leva para impressões negativas sobre os autores de autoficção. Ela é, pelo menos racionalmente, minha última saída para o texto ou para a sanidade mental. Escrevem tanto de si seria deficiência, uma muleta para quem não tem criatividade.
  9. (mas reconheço que a autoficção pode funcionar como bom ponto de partida para os pactos que leitor e autor firmam ao longo da narrativa: autobiografia é um referencial tão válido quanto qualquer outro)
  10. Autoficção é tendência, contemporaneidade. O ser contemporâneo se identifica e vive o estranhamento com sua época.
  11. Autorreferencialidade é um mal que herdamos e aprimoramos. Veja eu, falando de autoficção, de mim mesma diante da autoficção.
  12. Ver também: Lena Dunham.
  13. Autoficção e mais uma questão de complacência do que de auto-estima.
  14. Estrada vicinal do raciocínio: rechaçar a autoficção seria apenas inveja diante de quem não tem medo de ver a si mesmo no papel, exposto quase como um ator no teatro. Será por isso que eu também não gosto de teatro?
  15. É confortável pensar na autoficção se debruçando sobre o fazer literário, o papel do artista, a espetacularização da literatura. É tão contemporâneo quanto asséptico. Mas não me interessa.
  16. Todo mundo ainda vai se deparar com alguém que narra episódios enfadonhos e conclui com: “Minha vida daria um livro.”
  17. Knausgaard. Chorando.
  18. O bom de projetos literários é que eles podem ir acontecendo.
  19. O ruim é que eles são castelos de cartas, desmoronam completamente com questionamentos que surgem como inofensivos e se tornam tão essenciais quanto destrutivos.
  20. O projeto não ter forma é o que mais assusta.
  21. Ele daria um bom fanzine, mas não sei lidar com o hermetismo e incompletude dos fanzines.
  22. Um projeto cheio de arestas porém redondo.
  23. Knausgaard. Chorando.
  24. Saul Bellow. Na terapia.
  25. Baudelaire. “Exilado ao chão, em meio à turba obscura/As asas de gigante impedem-no de andar”.
THAIS LANCMAN É FORMADA EM JORNALISMO PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, ATUALMENTE REALIZA MESTRADO EM LETRAS NA MESMA INSTITUIÇÃO. SEU LIVRO DE ESTREIA, “PALITO DE FOSFENO” FOI LANÇADO EM MAIO DE 2014 PELA EDITORA REFORMATÓRIO .
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