O dedo

por Lygia Fagundes Telles

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Conto publicado originalmente no livro “Mistérios” em 1981 pela Editora Nova Fronteira.

 

Achei um dedo na praia. Eu ia andando em plena manhã de sol por uma praia meio selvagem quando, de repente, entre as coisas que o mar atirou na areia – conchas, gravetos, carcaças de peixes, pedras -, vislumbrei algo diferente. Tive que recorrer aos óculos: o que seria aquilo? Só depois de aparecer o anel é que identifiquei meu achado, o dedo trazia um anel. Faltava a última falange.

Não gosto nada de contar esse episódio assim com essa frieza, como se ao invés de um dedo eu tivesse encontrado um dedal. Sou do signo de Áries e os de Áries são apaixonados, veementes, achei um dedo, UM DEDO! Devia estar proclamando na maior excitação. Mas hoje minha face lúcida acordou antes da outra e está me vigiando com seu olho gelado. “Vamos – diz ela – nada de convulsões, sei que você é da família dos possessos, mas não escreva como uma possessa, fale em voz baixa, sem exageros, calmamente.”

Calmamente?! Mas foi um dedo que achei! – respondo e minha vigilante arqueia as sobrancelhas sutis: “E dai? Nunca viu um dedo?” Tenho ganas de esmurra-la: Já vi mas não nessas circunstâncias.

O poeta dizia que era trezentos, trezentos e não sei quantos. Eu sou apenas duas: a verdadeira e a outra. Uma outra tão calculista que às vezes me aborreço até a náusea. Me deixa em paz! – peço e ela se põe a uma certa distância, me observando e sorrindo. Não nasceu comigo, mas vai morrer comigo e nem na hora da morte permitirá que me descabele aos urros. Não quero morrer, não quero! Até nessa hora sei que vai me olhar de maxilares apertados e olho inimigo no auge da inimizade: “Você vai morrer sim senhora e sem fazer papel miserável, está ouvindo?” Lanço mão do meu último argumento: Tenho ainda que escrever um livro maravilhoso… E as pessoas que me amam vão sofrer tanto! E ela implacável: “Ora, querida, as pessoas estão fazendo montes. E o livro não ia ser tão maravilhoso assim”.

É bem capaz de exigir que eu morra como as santas. Recorro às minhas reservas florestais e pergunto-lhe se posso ao menos devanear um pouco em torno do meu achado: não é todos os dias que se acha um dedo. Ela me analisa com seu olhar lógico: “Mas não exorbite”.

Fecho a porta. Mas então eu ia dizendo que passeava por uma praia completamente solitária, nem biquínis, crianças ou barracas. Praia áspera e bela, quase intacta: três pescadores puxando a rede lá longe. Um cachorro vadio rosnando sem muita convicção para dois urubus nos pousados detritos. O sol batia em cheio na areia brilhante, viva, cheia de coisas do mar de mistura com coisas coisa da terra  longamente trabalhadas pelo mar. Guardei na sacola uma pedra cinzenta, tão polida que parecia revestida de cetim. Guardei um caramujo amarelo, o interior oco e roxo se apertando em espiral até a raiz inatingível. Guardei uma asa de concha rosa-pérola. O dedo não guardei não.

Não senti nenhum medo ou asco quando descobri o dedo meio enterrado na areia, uns restos de ligamentos e tecidos flutuando na espuma das pequeninas ondas. Há pouco encontrara as carcaças dos peixinhos que escaparam das malhas das redes. Lavado e enxague, o dedo parecia ser da mesma matéria branca dos peixes, não fosse a mundana presença do anel, toque sinistro numa praia onde a morte era natural. Limpa.

Inclinara-me para ver melhor o estranho objeto quando notei o pequeno feixe de fibras de algodão emergindo na areia banhada pela espuma. Quando recorri aos óculos é que vi: não era algodão, mas uma vértebra meio descarnada – a coluna vertebral de um grande peixe? Fiquei olhando. Espera, o que seria aquilo? Um aro de ouro? Agora que água se retraíra eu podia ver um aro de ouro brilhando em torno da vértebra, cingindo-a fortemente, enfeixando as fibras que tentavam se libertar, dissolutas. Com a ponta do cipó, revolvi a areia. Era um dedo, dedo anular, provavelmente, com um anel de pedra verde preso ainda à raiz intumescida. Como lhe faltasse a última falange, faltava o elemento que poderia me fazer recuar: a unha. Unha pontuda, pintada de vermelho, o esmalte descascando, acessório fiel ao principal até no processo de desintegração. Unha de mulher burguesa, bem cuidada, à altura do anel de joalheiro de classe que se esmerou na cravação da esmeralda. Penso que se restasse a unha certamente eu teria fugido, unha é importante demais. Mas naquele estado de despelamento, o fragmento do dedo trabalhado pela água acabara por adquirir a feição de um simples fruto do mar. Contudo, havia o anel.

A dona do dedo. Mulher rica, um anel daqueles devia ser de mulher rica e de meia idade, que as jovens não usam joias, só as outras. Afogada no mar? O biquíni verde combinando com o anel. O óleo perfumado fazendo brilhar a pele sem brilho. A onda, começou inocente lá no fundo e foi se cavando cada vez mais alta, mais alta, Deus meu, tão grande! A fuga na água resistente como um muro, os pés de ferro e a praia tão longe, ah! Mas o que é isso?… Explosão de espuma enrolando boca e olhos em esparadrapos de sal. Sal.

Respirei com ênfase. Mas que mulher vai hoje de anel de esmeralda para o mar? A elegante passageira de um transatlântico de luxo que afundou na tempestade? Mas fazia tempo que nenhum transatlântico de luxo naufragava assim.

Podia ser ainda uma suicida, dessas que entram de roupa pelo mar adentro, que o desespero é impaciente, mal teve tempo de encher os bolsos com pedras. A pedra verde no dedo. Ou a personagem real de um crime, crime passional, é evidente, enfraquecida a hipótese de latrocínio pela presença do anel. Um crime misterioso, já arquivado: mulher bonita. Marido rejeitado. Minhocando, roque-roque. Roque-roque. O flagrante da traição, “Ai, como dói!” A premeditação no escuro, tão profundo o silêncio no quarto que podia se ouvir o murmurejar do pensamento, roque-roque. Ela acorda em pânico no meio da noite “Mas que barulho é esse? Um camundongo? Ele se aproxima sem poeira. Sem emoção. No banheiro cintilante a proximidade da água facilita demais, os crimes deviam ser cometidos perto de cascatas. Um pouco de lavanda nas mão ligeiramente trêmulas após a tarefa cumprida na ausência da cozinheira em licença remunerada para ir visitar a mãe. A casa na praia não foi uma solução? E a praia deserta, o homem feliz não tinha camisa, só maiô. Tão simpático o homenzinho de maiô azul que todos os dias vai à praia levando a caixinha de sabonete, que será que ele leva naquela caixinha? Um detalhista: ideias miúdas, objetos miúdos. Na cabeça, um pequeno boné se tem sol. Era ele que andava com uma mulher grande, bonita? Era. E a mulher? Lá sei, deve ter viajado, ele ficou só. Parece que adora o mar, faça sol ou não, vai dar o seu passeio com sua caixinha e seu sorriso.

Por que cabeça de assassino fica do tamanho do mundo? A solução seria um porta-chapeú, mas se ninguém usa mais chapéu?… Enfim, se sobrou a cabeça não sobrou o dedo que na manhã de garoa ele deixou no mar. O anel foi junto, era tão afeiçoado a carne que se recusou a sair e ele não insistiu, pois ficasse o dedo com seu anel, que suma os dois! Nem os urubus saíram de casa nessa manhã. Ele saiu.

A pedra brilhava num tom mais escuro do que a água. Lembrei-me de um quadro surrealizante: uma praia comprida e lisa, de um branco leitoso com flores brotando na areia, flores-dedos e dedos-flores. No quadro, o insólito era representado por uma gota de sangue pingando nítida da ponta do dedo. No meu achado, o insólito era a ausência do sangue. E o anel.

A primeira pessoa que passar por aqui vai levar esse anel, pensei. Eu mesma – ou melhor, a outra, a lúcida, com falsa inocência não chegou a insinuar que eu devia guardar o anel na sacola? “Mais um objeto para sua coleção, não é uma linda pedra?” Expulsei-a, repugnada. Horror. A morte de Itabira reclamava a flor que o distraído visitante do cemitério cólera na sua sepultura, “Eu quero a flor que você tirou, quero de volta a minha florzinha!” A dama do mar faria uma exigência mais terrível por telegramas, cartas, telefone, me soprando com sua voz de sal: “Eu quero o anel que você roubou do meu dedo, eu quero o meu anel!” Como reencontrar naqueles quilômetros de praia os diluidíssimos restos de dedo para lhe devolver a esmeralda?

Com a ponta do cipó, cavei rapidamente um fundo buraco e nele fiz rolar o dedo. Cobri-o com o tacão do sapato e na areia tracei uma cruz, intuí se tratava de um dedo cristão. Então veio uma onda, que esperou o fim da minha operação para inundar o montículo. Dei alguns passos. Quando me voltei pela última vez, a água já tinha apagado tudo.

Lygia Fagundes Telles nasceu em São Paulo e passou a infância no interior do estado. É formada em direito pela Faculdade do Largo São Francisco da Universidade de São Paulo. O resto é história – da Literatura.
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