Bailarinas

por Tamiris Volcean

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CRÉDITO DA FOTO: sharyn morrow, CREATIVE COMMONS

 

Um deslize e a vida se esvai, como um balão que esvazia e sai voando das mãos para lugar nenhum. Ela nunca teve medo de perder o controle. Esticava o fio até restar a linha tênue entre a vida e a morte.

Não tinha medo do escuro.
Evitava ligar a TV no horário do jornal das 20h. Não queria ter sua coragem manchada pelas notícias. Elas rasgavam seu tímpano, misturando o sangue de seus sujeitos com o seu – fervilhante ao contato com um mundo vizinho-remoto.

O tiro disparado na zona norte nunca resvalava nas paredes de seu apartamento blindado construído do outro lado da cidade.

Viver é coisa curiosa. Em meio a lustres de cristais, o recanto dela ainda não tinha onde ser visto. E ela corria em busca de uma porta aberta. Sempre sem medo.

O medo era escasso assim como o brilho dos olhos – sempre definhados de tanto quererem, um dia, ser olhados. Rodeados por olheiras de tanto sonhar em desbravar a cidade em busca de um refúgio. Espaço para apenas um.

A vida é caixa de música de madeira. Bailarina rodando ao centro.
Se fechada, a matéria-prima não se transforma em beleza para os olhos, é preciso abri-la para ouvir a melodia. A bailarina dela nunca girou.

Apesar da coragem, vivia no limite tentando arrombar a fechadura que a impedia de desembrulhar a madeira e ter nas mãos o presente do viver. Certa vez, andando por uma rua paralela a sua e ao seu mundo, presenciou o estourar de um balão.
Uma garota, com o mesmo corte de cabelo que o seu, foi abordada. Esbarrou numa barreira de dez homens que a impediram de continuar seu caminho. Arrastaram-na sobre a terra, deixando um vinco preenchido por lágrimas – rio no qual o seu sossego desaguou, sendo levado para longe.
O longe é lugar desconhecido, não se sabe como chegar. Lá mora o sossego de muitas outras terceiras pessoas sem nome de 17 anos.

Vira aquilo e fugira para sua fortaleza. Pedras humanas nunca cruzariam seu caminho ao tentar chegar em casa após o sol encerrar o expediente.

A bailarina da garota da rua paralela quebrou. Estilhaçou, desafinando a melodia.
Restou-lhe mendigar uma mão para soldar os cacos de dignidade espalhados pelo terreno baldio. O berço de mais um estupro.

Ela, personagem principal, conhecera a superfície de muitos oceanos, esquecendo-se de explorar as entranhas da própria vida. Viajara todos os continentes e ainda não tropeçara em nenhuma porta aberta.
Sem conhecer a si mesma, é compreensível que não prenda o ar de seu balão com as duas mãos. É compreensível que o nó apertado, fruto do desejo de possuir ar para respirar seja substituído por laço frouxo.

A vida é coisa muito breve e os dias vão para nunca mais. As horas passam e muitas bailarinas são quebradas em pedaços que refletem sonhos fragmentados, enquanto outras permanecem em dormência, sem nunca disparar seu canto e leveza de dança para além das paredes rígidas encobertas pelo veludo vermelho sangue.
Bailarinas dormentes, além de não girarem livres, têm seus ouvidos abafados pelo excesso de proteção que as envolvem. Não escutam o barulho de vidro quebradiço que, como mil facas afiadas, entram pelos ouvidos e chegam ao coração; encolhem-se, não espicham a mola em espiral que as prendem no suporte acima de todas as outras joias.

Ela era uma bailarina dormente. Trancafiada. Vida enrijecida pelo verniz que a mantinha brilhante por fora e escondia todo o lampejo do tesouro interior.
Pensava que, ao desligar a televisão e não assistir o jornal das 20h, estaria livre dos perigos de viver. O botão do aparelho eletrônico afastava seus fantasmas.

Após ouvir o estouro e o suplicar agudo de látex sofrendo deformações, enxergou que a vida era também coisa fugaz. Seus olhos não queriam mais apenas ser olhados, queriam transbordar fulgor. Era hora de dar corda na bailarina, saltar e expor a pele para sentir, desobstruir os ouvidos, marejar os olhos; hora de aperceber-se parte do mundo.

Ela não ia mais abafar os ouvidos – ia girar e colar todos os cacos de outras bailarinas que, no chão, perdem o glamour e cortam a sola dos pés daqueles que os ignoram e passam sobre eles.

Pegou as chaves do carro, abriu os vidros e ouviu a melodia da vida. O período de dormência acabou e era hora de dançar para todos assistirem.

Começou a girar sobre as rodas que, no chão molhado, travaram e o giro perdeu o controle. O medo aflorou. Queria segurar o volante e dar um nó atrás do outro naquele balão que insistia em murchar pouco a pouco.

Subira ao palco pela primeira vez, sentira a melodia da beleza da vida em cada metro quadrado de pele – sobressonhava. Não queria encerrar o show.
O carro derrapou, formando no contato entre asfalto e pneu linha que, ao chegar ao final, tornava-se desbotada. Pálida como a cor dos seus olhos que refletiram os raios de sol pela última vez.

A caixa fechou. A música parou de cantar e, dessa vez, foi ela, bailarina de cristal, que estilhaçou. Fim do caminho.

A vontade de viver demorou tanto que nunca veio e ela se desfez em lágrimas.
Chegou a hora, passou a hora. Ela, a vivacidade, nem veio e nem chegou. A caixa de música terminou seu recital despovoada – desconseguiu de existir.
A vida é fruto na beira do abismo pronto para se soltar – ela demorou a perceber que o tempo é um pé do futuro rasteirando o presente.

Tamiris Volcean cursa graduação em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista. Trabalha com Marketing numa agência de Bauru, interior de São Paulo. Como escritora, ainda não tem nenhum livro publicado, mas logo pretende assinar o nome ao lado de um título só seu.
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