Entre chás, casamento e bicicleta

por Santana Filho

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Meu caro Euclides,

Escrevo para te informar que planejo abrir mão do projeto literário. Acordei há pouco, após um sonho com elfos e ninfas às voltas com o castigo da imortalidade, e a primeira lembrança onírica foi um fim de tarde na Academia, participando do chá, onde o Tiririca também estava servido, e éramos, todos, imortais. Nélida me olhava através do aquário de vidro onde boiam seus olhos, e Lygia, a bela Lygia, falava coisas como escrever com carvão pelas paredes em noites insones na mansarda da Consolação; penhoar ao vento.

Acordei urrando. Sentei na cama, tomei dois goles d´água, acarinhei o esterno contra a taquicardia, e fui atravessado pela questão fundamental: para isso escrevo? Esmiúço palavras, escafandrista, fuço na lama, como pescasse caranguejo, à procura do tom ideal, do ritmo certo, da respiração adequada, para terminar recebendo uma chávena das mãos espectrais do Marco Maciel, ou viver ameaçado pela chegada da Bruna Surfistinha informando ser doce o veneno do escorpião, justo o meu incompreendido e amaro signo? “Porta-me-lá!” – diria papai, de orgânica erudição.

Não, meu bom amigo, isso não é futuro para se aspirar, você me compreende.

Não é fácil falar assim, e só confiarei a ti – e à eloquência destes bigodes – o desabafo. Nada é simples porque desde cedo aprecio as palavras, e dediquei a elas boa parte desta existência que não tem encontrado em outros ambientes o lenitivo de exclamações definitivas: ‘capitão, o tempo urge!’, ‘eles passarão, eu passarinho’, ‘a vida, branco ou tinto, é para vomitar!’.

Sim, tenho lutado contra a ditadura dos textos minimalistas e claustrofóbicos, o desprezo às palavras eloquentes (que fim levaram alvíssaras, píncaros, azáfama?), o massacre dos telegramas sobre a epístola, a dinastia do ‘menos é mais’, entretanto fui sempre um paladino (outra das antigas) neste ofício porque aprendi que quem quiser vida fácil se dedique a enfiar pregos em barra de sabão, não é mesmo?

Meu bom Euclides, para me socorrer poderás evocar a independência, o lado B, as estradas vicinais, aludir às delícias do trajeto em detrimento da chegada, essa gama de inutilidades que mentes boçais são capazes de criar para dar de comer à mediocridade (lembre-se da complacência com que dois burros coçam um ao outro). Acontece que se entro em uma arena é pretendendo chegar ao pódio, e quando me falam em narrativa econômica imagino velhotes ranzinzas escondendo palavras embaixo do colchão.

Na juventude, diante do conflito primordial da existência nos embatendo entre casamento e bicicleta, casei com as letras, para delas me separar agora, esperando que tenha sobrado alguma bicicleta por aí; de preferência uma vèlib nas imediações dos Champs Elisées, naquela boa e velha cidade. Darei carona ao menino Marcel, após seu primeiro e definitivo espirro, e ele, da garupa, irá empinando em papel colorido suas frases longas e belas pelas ruas da cidade, iluminando o quartier e transformando meu texto, com sujeito, verbo, predicado – e singelos complementos – em um papagaio finalmente contemporâneo.

Caríssimo Euclides, talvez seja sonhar demasiado, entretanto fui desde sempre excessivo, e você sabe.

Com afeto verdadeiro.

                                                                           

                                                Pelópidas Blue

 

 

Blue é o artifício com o qual atualizei o Pelópidas de batismo –   sugestão do editor.

José Santana Filho nasceu em Balsas, no interior do Maranhão. Passou a infância em cidades às margens do Rio Tocantins e vive em São Paulo desde 1982, quando se formou em medicina. É autor do romance “O rio que corre estrelas (2012)”, seu livro de estreia, do volume de contos “O beijinho e outros crimes delicados” (2013), ambos publicados pela Editora Terracota. pela reformatório publicou o romance “A casa das marionetes”.
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