Roteiro de uma morte anunciada

por Marcelo Nocelli

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título completo: roteiro de uma morte anunciada ou a vida como ela é (está) , mas não deveria ser

 

1 – INTERNA / BILHETERIA DO CINEMA (início de noite)

Abrimos com a imagem de poucas pessoas na fila da bilheteria. Num plácido plano geral é possível observar uma fila muito maior no hall de entrada, onde as pessoas compram grandes baldes de pipoca.

Um casal (os últimos da fila para compra das entradas) conversa.

Ela: (falando alto) Você devia ter comprado as entradas pela internet. Este é um espaço VIP, não é pra formar fila. Só falta você me dizer que vai pagar em dinheiro.

Ele: (falando baixo) É que resolvemos vir ao cinema no meio do caminho, lembra?

Ela: Como se celulares não tivessem acesso à internet.

Ele: Calma querida. A fila está pequena. É rápido.

 

2 – INTERNA / SALA DO CINEMA

O casal entra na sala, procurando seus lugares.

A tela grande, em sistema cinemascope (aquele com formato retangular de película com grandes bordas pretas nas partes superiores) exibe uma propaganda de um grande banco. (O som é excelente, muito superior à imagem). Com uma panorâmica geral é possível observar enormes poltronas confortáveis (de duas em duas há uma pequena mesa com abajures. Em algumas há garrafas e taças de vinho. Em outras, pratos refinados). Algumas pessoas já estão sentadas. Outras deitadas. (as poltronas são reclináveis, parecidas com as das primeiras classes dos grandes aviões).

Ouve-se o barulho do tilintar de talheres, copos, taças. O burburinho das pessoas conversando. Ninguém presta atenção à tela.

Termina o anúncio do banco. Começa um novo. Dessa vez é uma propaganda do mais moderno celular disponível no mercado. O comercial exibe todas as funções tecnológicas do aparelho. Boa parte das pessoas presta atenção. (Algumas boquiabertas com a novidade).

O casal encontra seu lugar. A câmera dá uma panorâmica geral e vai fechando no casal com um travelling de aproximação na mulher, que passa a conferir o conforto da poltrona, os botões múltiplos na lateral, o braço móvel que, levantado, faz com que as duas poltronas se juntem dando a impressão de uma cama. Depois o travelling passa para o homem, que confere as opções no cardápio e a função de cada botão ao lado da poltrona.

Ele a puxa pelo braço com entusiasmo:

Ele: Vamos pedir um vinho? Você quer comer alguma coisa? Tem azeites especiais para pipoca. Mas as pipocas só são vendidas lá fora. Esquecemos de comprar. De qualquer forma, prefiro jantar. Dizem que o chef deste cinema é aquele renomado lá daquele restaurante que a gente foi àquela vez, no nosso aniversário de casamento, lembra?

Ela: Vamos pedir vinho branco. A maioria das pessoas está tomando vinho branco.

– GARÇOM!!! MAIS UMA GELADA FAZ FAVOR! Grita um jovem lá do fundo em meio a uma turma de cinco ou seis que não param de gargalhar.

Ela: O que é isso? Esses moleques não têm educação?

Ele: Querida, eles estão na parte de cima da sala. Lá nem tem esse serviço exclusivo de garçom. Estão zoando. Veja, até as poltronas são menores. São comuns. Molecada.

Ela: Aqui não é lugar de molecada pobre vim zoar. Isso é culpa do cinema. Eles fazem isso para que as pessoas lá em cima nos vejam aqui embaixo e sintam inveja. Tenham vontade de ficar aqui. É uma espécie de marketing também. Eu ouvi dizer que logo isso acaba e essa sala será inteira VIP. Por enquanto é só pras pessoas conhecerem. Eles inventam que não tem lugar nas outras salas comuns só pras colocar as pessoas aqui. Aí elas veem toda essa exclusividade e logo a procura aumenta. Aí eles terão que fazer duas ou três salas dessas e deixar uma ou duas comuns para aqueles que não podem pagar, mas mesmo assim, insistem em vir ao cinema.

Ele: (sorrindo) Vou apertar o botão para chamar o garçom.

Nesse momento terminam as propagandas e a tela grande começa a exibir trailers de blockbusters americanos.

O garçom se aproxima. O homem levanta o dedo para fazer o pedido, mas a mulher, já com o cardápio nas mãos se antecipa:

Ela: quero uma coxinha de ossobuco, pra começar. Escolhe o vinho, amor?!

– ESSA PORRA DE FILME COMEÇA HOJE AINDA? Grita um dos adolescentes lá de cima.

Ela: (irritada) Garçom, eu não sou obrigada a ouvir a gritaria desses moleques. Ainda mais palavrão.

Garçom: Desculpe, senhora. O segurança já foi avisado.

Ele: Eu vou querer esse ravióli de mussarela de búfala e manjericão ao molho branco. Pra acompanhar esse vinho Pi… É… Pinot Barefoot?! Ah, e me traz uma garrafa de água mineral Acqua Panna das Colinas, sem gás.

Enquanto o garçom anota o pedido numa espécie de tablet, ouvem-se os garotos discutindo com os seguranças ao fundo.

Ela: Meu senhor, esses maloqueiros estão transformando isso aqui num inferno. Essa gritaria! O segurança não tem que ficar conversando com eles. Tem que por pra fora. Eu não sou obrigada a passar por isso. Vocês oferecem um espaço VIP pra isso?

Garçom: A situação já vai ser controlada, senhora. Eu garanto.

Ela: Veja bem, eles não têm o direito de entrar numa sala dessas para atrapalhar quem quer ver o filme. Muito menos, nós somos obrigados a aguentar isso. Veja bem, eu não sou melhor que ninguém, mas eu paguei mais caro, justamente pra ter alguma exclusividade. Isso é ou não é uma sala VIP?

Garçom: Desculpe senhora.

Os garotos se acalmam, momentaneamente. Enquanto isso ela passa os olhos ao redor. Vira-se para ver as pessoas mais ao fundo. Observa discretamente seus vizinhos de poltrona. Ao seu lado, um casal de pouca idade, já com os braços móveis das poltronas-camas levantadas se beija loucamente. O rapaz está com as mãos dentro da calça da garota, que geme baixinho.

O barulho do tilintar dos copos e talheres aumenta consideravelmente. O volume das conversas também.

Ao fim de um dos trailers (que já dura meia-hora) um primeiro sinal sonoro. (Como os do teatro).

A câmera em zoom-in começa a mostrar no primeiro plano, cada uma das pessoas na plateia. Alguns aparecem teclando ou falando ao celular. A maioria está comendo, bebendo e conversando baixo. Outros estão deitados. Alguns conversam alto e riem. Enquanto isso os garçons vão passando de lugar em lugar com as máquinas de cartões para cobrança das contas.

Durante esta tomada tocam os dois outros sinais sonoros. A Luz da sala vai baixando. A câmera volta-se para a tela, que agora exibe o título do filme enquanto o sistema de som multimídia transmite (numa tentativa falha de ludicidade e bom humor, misturada a nomes de anunciantes) o aviso com as regras de segurança.

A câmera vai escurecendo em um zoom-in na tela que começa a exibir o filme.

 

3 – INTERNA / SALA DO CINEMA

Corte.

Plano de detalhe no casal.

Em seus rostos é possível perceber o incomodo e a dificuldade para conciliar todas as ações; acertar a reclinação da poltrona numa posição que os permita manejar os talheres no escuro para comer, assistir ao filme, ler as legendas e ainda se preocuparem em não deixar nada cair ou manchar as roupas.

O barulho dos tilintares de copos e talheres continua. As conversas, risos e avisos sonoros dos celulares diminuem um pouco. Num long-shot é possível observar a maioria dos presentes com as mesmas dificuldades. Outros, que permanecem quietos e sem comer nada, tentando prestar atenção no filme, se mostram incomodados com o cheiro da comida alheia e o barulho. Um casal chega a se levantar e ir embora. A câmera os acompanha até a porta de saída. Depois volta em zoom-out para a tela que exibe uma cena de total carnificina. E mudando para retropojeção como fundo de cena, a câmera vai focando lentamente cada uma das pessoas da plateia; comendo, dormindo, olhos arregalados. Olhos fechados. Bocas mastigando. Dedos teclando em celular. Casais se beijando. Uma namorada masturbando o seu parceiro. Um casal de mais idade tentando fingir atenção no filme. Um homem roncando enquanto a mulher tenta o acordar com pequenas cotoveladas. Até voltar ao casal inicial.

Ele: (Olhando para chão) Amor, deixei cair molho no chão.

Ela: Deixa pra lá. Eles têm gente pra limpar depois… Nossa que cheiro horrível de comida! O cara aqui do lado pediu um queijo muito fedido. E nem comeu tudo. O queijo era mole. O dedo dele tá todo branco. Nojento. Agora ele tá limpando na poltrona. Esse filme também não ajuda. Estou ficando enjoada… Tô com vontade vomitar.

Ele: Calma, querida. Vá ao banheiro.

A câmera corta para o filme que segue para uma cena comovente onde um soldado faz curativos no ferimento do outro, que está à beira da morte. Eles fazem juras e promessas de amizade. O soldado pede chorando que o amigo avise sua família. Um fio de sangue escorre pela sua boca e ele fecha os olhos.

A câmera volta para o casal. Ela procura um lenço umedecido na bolsa. Ele fica olhando pra ela:

Ele: Você está bem?

Ela faz um gesto para que ele espere um pouco. Reclina a poltrona, deita e fecha os olhos, apertando o lenço umedecido nas mãos. O casal de jovens ao lado faz movimentos sexuais.

– BUUURP. (Barulho de arroto alto ao fundo da sala). Imediatamente começa uma gargalhada coletiva de metade da plateia. A outra metade faz cara de raiva, nojo. Viram-se para trás. Alguns xingam alto. Outros resmungam baixinho.

– Porco filho da puta! (Um rapaz grita rindo). A namorada dele enrubesce, mas ri dando tapinhas no braço rapaz.

Muitos pedem silêncio. O cheiro de comida começa a dominar o lugar. O ar-condicionado está muito forte. Algumas pessoas começam a se incomodar. O barulho dos tilintares praticamente acaba. Mas um outro som invade a sala; o de corpos se revirando nas poltronas de couro.

A câmera prossegue em pontes pelas pessoas na plateia e na tela de projeção. A câmera corre em chicote dando a ideia da passagem de tempo em zoom-out nas pessoas e na cena do filme.

FIM! (Aparece na tela do cinema) Em Fade-out.

 

4 – INTERNA / CASAL CAMINHA SAINDO DA SALA DE CINEMA, ANDANDO PELOS CORREDORES DO SHOPPING.

Ele: E ai, o que você achou?

Ela: Gostei. Mas eles deveriam separar completamente as salas. Separar, inclusive, a entrada das salas VIPS das salas comuns. Também precisavam diminuir o ar-condicionado. As poltronas de couro ficam num gelo só. Também precisavam fazer alguma coisa pro cheiro da comida não empestear o ambiente. Aquilo entra no ar-condicionado de tal maneira que a gente sai de lá fedendo comida. Duvido que nas salas VIPS dos Estados Unidos isso acontece.

Ele: E o filme? O que você achou do filme?

Ela: Filme chato. Não consegui entender quase nada. E aquela cena sanguinária no meio? Desnecessária. Não dá nem pra comer direito vendo aquilo.

Ele: É. Mas a comida estava ótima. E pensa bem, a gente nem precisa sair pra comer. Já fez tudo isso no próprio cinema. Isso é o legal dessas novas salas.

Ela: É. O casal do nosso lado não precisa nem sair pra comer, nem pra ir ao motel. Já fizeram tudo lá!

Ele: É mesmo? Eu nem vi!

Ela: Eu vi e ouvi. O que é isso na manga da sua camisa?

Ele: Ah, o cara do lado foi abrir o catchup no dente e espirrou na minha camisa. Filho da puta!

Ela: Catchup? No cinema?

Ele: Sim. Batata frita. Você não escutou o barulho dele abrindo a cerveja a toda hora? Aquilo estava me irritando.

Ela: Puts. Que pobre. O cara vem num cinema desses pra comer batata frita com catchup e cerveja?! Ora faça-me o favor. Vai pro bar da esquina ver jogo de futebol, então. Mas e aí, você gostou do filme?

Ele: Não… Teve umas partes que eu nem consegui prestar atenção. Meio chato. Acho que o cinema está mesmo acabando. O cinema está morrendo. Acho que por isso estão criando essas salas pra atrair mais gente pros cinemas, porque se for só pelos filmes, não vale a pena.

Ela: Ah, mas deve ser legal assistir a uma dessas novas comédias nacionais. Aquelas com a Ingrid Guimarães e aquele outro gordo… O…

Ele: O Leandro Hassum?

Ela: Ele mesmo. Ou os filmes daquele Fábio Porchat! Do Bruno Mazzeo. Assistir uma comédia dessas nesses cinemas deve ser bem mais divertido. Filmes engraçados que dá pra gente assistir comendo como se tivesse na sala de casa.

Ele: É! Realmente. O cinema nacional evolui muito nos últimos tempos com essa nova geração. Eles fazem filmes divertidíssimos pra gente rir do começo ao fim. Lembra daquele último que a gente viu no mês passado? Como era mesmo o nome?

Ela: Ah, não lembro. Mas era com aquele cara da novela. Amor! Olha só aquela blusinha que eu tanto queria, em promoção ali naquela loja. Vamos entrar? É rapidinho!

Ele: Tá. Mas depois eu quero passar no Mac Donald pra um sorvete. Esquecemos de pedir a sobremesa lá no cinema.

Ela: Sorvete? Engorda!

Ele: Então não compro a blusinha.

Ela: Tá bom. Eu tomo sorvete com você.

Ele: Bem que eles podiam fazer teatro com esse conceito, né? Aí quem sabe a gente até animava a ir num teatro.

Ela: E você acha que naqueles grandes musicais não deve ter há muito tempo isso tudo? Claro que tem. Vamos qualquer dia num teatro? Mas não nesses teatros chinfrins. Num teatro de verdade. Um musical da Cláudia Raia. Desses atores de verdade. Superprodução.

Ele: Se tiver VIP eu até vou.

Ela: Vamos logo pegar a blusinha e tomar o sorvete, que eu tô louca pra chegar em casa… Apesar que hoje já perdi minha novela por causa desse filme ruim…

A câmera termina em zoom-out com o casal entrando na loja.

MARCELO NOCELLI, NASCEU EM 1973, EM SÃO PAULO, CIDADE ONDE MORA. É FORMADO EM LETRAS. COMO ESCRITOR, ESTREOU EM 2007 COM O ROMANCE “O ESPÚRIO”. EM 2009 PUBLICOU O ROMANCE POLICIAL “O CORIFEU ASSASSINO” (TRADUZIDO PARA O ITALIANO).  TEM DIVERSOS CONTOS E CRÔNICAS PUBLICADAS EM REVISTAS E SITES ESPECIALIZADOS. PELA REFORMATÓRIO PUBLICOU “REMINISCÊNCIAS” (2013).
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