Um dia a vida acontece

por Fernando Coelho

ascatica.jpeg

créditos da foto: “memories” por joyce kaes/creative commons
Um dia a vida acontece apertada com um nó na garganta. Perde-se alguém de casa, do sangue. Perde-se um passarinho que nunca mais virá cuspir cantoria na beirada da janela. Perder remói dentro. Que palavra fatal, onírica e perigosa! Que palavra gelatinosa é perder. Não tem nenhum significado, a não ser asa quebrada, vento cheirando a fundo de rio, lembrança de infância queimada como papel envolto em fogo de alfazema. Perder vem de vingança. Vingança da gente contra a gente, do silêncio contra a palavra, da dor contra a ferida, da saudade contra a presença, do rio contra as curvas do caminho, da esteira contra o chão duro e frio. A gente vai perdendo amigos, sentimentos, fotografias amarrotadas sob o colchão de ferro. Perder piora a vida dos operários da noite que lidam com carvão, com as fogueiras das minas onde os sonhos são despreparados sem o testemunho das estrelas. Eu não suportaria perder o grande amor. Mas é o que mais se perde, nesta fornalha inacreditável dos dias, das dúvidas, da insinceridade, do apanágio do orgulho que remenda e ofende o coração. Perder é acabar-se no nada. O nada existe, porque o nada é a flor de perder. Perder é tornar-se nada. Ficar sem nada. Perder o grande amor, a grande flor, a grande possibilidade, o inventário da alma, a certeza do amor, é cruel. A pior coisa que pode acontecer nada vida da gente é perder a certeza de que aquele amor é mesmo um amor. E só. 
Fernando Coelho, baiano de Conceição do Almeida, vive em São Paulo desde fevereiro de 1966. É poeta, escritor e jornalista. Tem 12 livros publicados. Foi chefe de reportagem na Rede Globo, na TV Cultura. Trabalhou também no O Estado de São paulo e na Rede Bandeirantes. Fundou e dirigiu as duas primeiras televisões legislativas do país. Ocupou o cargo de Diretor de Comunicação Social e Marketing da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Exerceu o cargo de Diretor de Comunicação e Promoção do IPHAN (Ministério da Cultura). Acaba de lançar, pela Editora Aquariana, aColeção Poeta Fernando Coelho, com 3 livros: O Quarador de Borboletas, Balada de Itapuã e Manuscritos Sem Juízo. Atualmente é diretor geral da Companhia de Comunicação.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s