Som e Fúria

por Santana Filho

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O taxista que me levou ao aeroporto aprecia música clássica; o rádio não saiu da Cultura, numa retrospectiva de Stravinsky.

O amigo à espera no Rio prefere o POP. No vigor dos cinquenta, ainda repercute o show do Jake Bugg dois dias atrás, portanto, ouvimos todo o CD durante o percurso até o apartamento na Barra.

No apartamento, de frente para o mar, a filha se refestelava ao som da Rihanna e seu World Peace. Embora desfrute de perfeita audição, Thalita necessita de muito volume, portanto foi aos berros que me cumprimentou: “E aí, tio Dri?”

Tio Dri sou eu, nascido Rodrigo Antônio, quando nome composto dignificava o bebê. Essa garotada só se trata por monossílabos, portanto não deixa de ser um brinde à minha juventude editar esse nome antigo.

Vesti a bermuda, calcei as havaianas e descemos.

No elevador, o garotão carregando a prancha de surf ouvia alguma coisa no fone de ouvido num tal volume, que desisti de perguntar ao amigo se ele continuava com o Tai Chi; achei dispensável, e abstraí.

Na calçada, percebi que a batucada do bar ao lado estava em desarmonia com o carro de som à frente convocando para o ensaio da escola de samba. À direita, outra turma coreografava o funk, à frente da caminhonete, apenas uma usina de som.

Meu amigo comentou com desdém: “Detesto samba-enredo, funk e carnaval.”

Imaginei, com isso, entabular nossa primeira conversa, porém ele retirou do bolso o Ipod e, nem bem escutou os primeiros acordes, me passou o aparelho:

– Trouxe pra você. Ouve, você gosta disso.

Sacando outro igualzinho, plugou no ouvido antes que eu conseguisse emitir qualquer som, e demos início à caminhada a beira mar.

No meio da tarde o céu estava bonito no Rio de Janeiro. O azul borrado de cinza alternava pigmentos vibrantes e esmaecidos à medida que o sol iluminava nuvens ou era engolido por elas. Esta percepção, devaneei, harmonizaria com o palavreado das ondas.

Custou-me importante exercício de concentração manter o idílio ao som do Nirvana que, não consegui avisar, deixei de curtir há tempos.

Bobagem! Quem vai se ocupar da sonorização diante de cenário assim exuberante?

Eu vou me ocupar da sonorização diante de cenário assim exuberante!

Retirei os fones dos ouvidos, decidido a interagir com o mundo externo, porém fui tão vorazmente atropelado pelo Rap do Silva, que minha antiga paixão pelo som do Nirvana ressuscitou, e recoloquei os aparelhos, numa tacada só.

Gosto de música, entretanto estava sem saída. Trancafiado no universo sonorizado, ansiava por algum silêncio melódico, e a voz falada me pareceu um dinossauro se espreguiçando ao sol.

Procurei cumplicidade nos semelhantes que iam e vinham, sem sucesso. Todos utilizavam o mesmo arsenal, e não percebi em ninguém nenhum desconforto; aliás, não percebi expressão nenhuma naquele Blade Runner tropical.

Ouvi há poucos dias: “Hoje pode-se andar com milhares de canções dentro do bolso.” Milhares; ao alcance da mão; bala na agulha.

Tremi com a lembrança. Tanta gente preocupada com o apagão, a elevação dos juros, a lata d’água vazia na cabeça, entretanto não vejo ninguém atento ao arrastão musical que se alevanta.

A nuvem de chumbo estufou de repente e começou a chover. A chuva produz acordes por onde passa e desejei caminhar ao som desses acordes.

O amigo não compartilhava o desejo. Acelerando o passo, apontou o prédio para onde retornar. Concordei. Concordei, inclusive, em dar um pulo na academia para uma sessão de alongamento. Abri a porta e fui abalroado pela galera marombando ao som techno cuspido pelas quatro paredes fosforescentes, uma de cada cor. Chapei!

Tranquei-me na sauna seca onde a música ambiente era razoável, porém àquela altura eu estava sensível aos sons minimalistas do Ângelus.

O tiro de misericórdia veio quando fui informado, ainda na ducha:
“A gente dá uma subida e desce rapidinho pra um restaurante em São Conrado, onde há uma excelente Música ao Vivo.”

Não berrei, não me exasperei, sequer estanquei o movimento da toalha nas pernas.

– Amigão, seria show, mas preciso voltar pra casa porque sinto falta de som.

– Não por isso! Abro uma exceção e te acompanho à quadra da Beija-Flor depois do jantar. Esta noite, ensaio geral.

Uma hora e quarenta minutos depois eu estava sentado na poltrona 6A da Ponte Aérea, folheando a revista de bordo.

Em casa, me deliciei com o tilintar das duas pedras de gelo no Blood Mary, e mexi o copo unicamente para continuar degustando o atrito. Meu cachorro caminha arrastando as patas no assoalho, e esse outro atrito me provoca afetos.

Seguimos até o jardim e sentamos na grama. Um vento assanhou os galhos da palmeira e despertou o limoeiro, que farfalhou. O grilo cavando por perto cantou displicente: é sorte. Ao longe o apito do guarda, Seu Jota, diz assim: “Estou por aqui.”

Explico ao cão que amanhã iremos ao parque pelo meio do dia, veja onde ainda estamos a esta hora. Ele pende a cabeça e me fixa o olho bola-de-gude. Confirmo a informação, ele pende um pouco mais, levanta o rabo e grunhe a compreensão: estamos entendidos.

Vamos entrar porque temos sono e não demora a chover.

Grossos pingos de chuva batem na vidraça e eu os ouço desmanchar e escorrer janela abaixo; alguns pipocam no alumínio, metralhando a noite.

Entendo que o silêncio é a melodia da alma. É necessário escutar o silêncio porque um mundo onde o silêncio não tem voz é um árido deserto.

JOSÉ SANTANA FILHO NASCEU EM BALSAS, NO INTERIOR DO MARANHÃO. PASSOU A INFÂNCIA EM CIDADES ÀS MARGENS DO RIO TOCANTINS E VIVE EM SÃO PAULO DESDE 1982, QUANDO SE FORMOU EM MEDICINA. É AUTOR DO ROMANCE “O RIO QUE CORRE ESTRELAS (2012)”, SEU LIVRO DE ESTREIA, DO VOLUME DE CONTOS “O BEIJINHO E OUTROS CRIMES DELICADOS” (2013), AMBOS PUBLICADOS PELA EDITORA TERRACOTA. PELA REFORMATÓRIO PUBLICOU O ROMANCE “A CASA DAS MARIONETES”.
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