Um bocado de tristeza

por Marcelo Nocelli

aiaiaiaia

O título original do textoé “É preciso um bocado de tristeza em tempos de Gregórios que não são de Matos e de textos filosóficos temperados com Ajinomoto…”, e foi com um bocado de desgosto que precisamos reduzi-lo no menu deste blog.

 

Fazer samba não é contar piada / E quem faz samba assim não é de nada” Já dizia Vinicius de Moraes, que foi apelidado carinhosamente pelo amigo e parceiro Tom Jobim de “poetinha”, alcunha que, mais tarde, alguns algozes da poesia brasileira, talvez por inveja do confrade boêmio, que ao sisudo convívio acadêmico e as convenções sociais dos intelectuais, preferiu a descontração da música popular e a simplicidade dos bares da vida, ou, pior ainda, por se acharem acima do bem e do mal, detentores dos poderes da crítica, tentaram aludir à ideia de uma poesia menor, de baixa casta literária.

O que ruminariam esses Pécoras da vida hoje ao se depararem com um livro que tem nome de brincadeira pedagógica infantil? Pois eu, com a humildade e a tristeza de se saber apenas leitor, feito apenas para ler e para sofrer pelo amor a literatura sem ser só perdão, em verdade vos digo que fazer literatura também não é contar piada, feito essa gente que anda por ai brincando com a poesia…

O Gregório poeta atravessou diversas vezes a porta dos fundos do país. Foi muito criticado e suas inimizades cresciam em relação direta com os poemas que concebia. Nunca foi queridinho de ninguém, ao contrário, e por isso ganhou uma apelido menos afetuoso que o de Vinicius, porém muito mais denso, como roga a boa literatura: “Boca do inferno”.

Talvez a mediocridade da poesia atual esteja justamente na profissionalização do poeta. O poeta não é mais um fingidor como autopsicografou Pessoa. Hoje qualquer humorista se finge poeta acima de qualquer suspeita e José Paulo Paes parece mesmo nunca ter existido. A poesia está morta. A simplicidade profunda de Manoel de Barros e seus poemas concebidos sem pecado perde cada vez mais espaço para os poemas rasos, banalidades forjadas e figuradas em exagero caricato na vã tentativa de parecerem concebidos em meio ao pecado.

É meu caro Wilde, quando você disse que nunca devemos lamentar que um poeta seja um bêbado, mas sim lamentar que nem todos os bêbados fossem poetas, eles não entenderam o que o autor quis dizer, e nos dias de hoje todo frequentador bêbado dos bares da Rua Augusta se acha poeta. É meu caro Arsênio Palácio, você que foi anarquista, poeta e filósofo dos bons, que flertou com o jornalismo na década de 20, não gostaria de assistir nossa atual ruína poética, política e filosófica. A anarquia é total por aqui, mas não se regozije ainda; Anarquia por aqui, agora, é sinônimo de bagunça, baderna, caos e confusão, segundo os nossos filósofos atuais; Pondé e Olavo de Carvalho. Tenho certeza de que você não gostaria de conhecê-los. E até nosso jornalismo, meu caro Arsênio, segue escoando. Nosso jornalismo agora é ainda mais engajado. É ele quem coordena os golpes e condena sem julgamento, e, os poucos que dizem não aceitar essa condição em que vivemos não têm força e fôlego para combatê-la, pois não conseguem ser imparciais. (Sim agora ensinam nas faculdades de jornalismo, que não existe imparcialidade, e insistem que todos têm que escolher um lado. Isso tem sido um problema nos últimos tempos).

Pois bem, meu caro Palácio, temos aqui jornalista com pós-graduação em filosofia que defendem, veemente, com unhas e dentes, tudo e todos que são classificados como minorias, e que ataca tudo e todos que discordam dele na mesma proporção. Tenho pra mim que o Sansei sonha ser um daqueles super-heróis de seriados japoneses dos anos 80, afinal, ele tem poderes sobrenaturais de ver, ouvir e sentir tudo de ruim que acontece na cidade e estar sempre lá no lugar comum certo, pronto para defender os fracos e oprimidos com textos cheios de bom-mocismos politicamente corretos perdidos em divergências que, sem o sal da terra, assim como o seu caviar, são temperados com Ajinomoto, saca?

Pois bem, meus finados amigos, poetas e filósofos… Estou farto de semideuses!

Onde é que há Pessoas neste mundo?

MARCELO NOCELLI, NASCEU EM 1973, EM SÃO PAULO, CIDADE ONDE MORA. É FORMADO EM LETRAS. COMO ESCRITOR, ESTREOU EM 2007 COM O ROMANCE “O ESPÚRIO”. EM 2009 PUBLICOU O ROMANCE POLICIAL “O CORIFEU ASSASSINO” (TRADUZIDO PARA O ITALIANO).  TEM DIVERSOS CONTOS E CRÔNICAS PUBLICADAS EM REVISTAS E SITES ESPECIALIZADOS. PELA REFORMATÓRIO PUBLICOU “REMINISCÊNCIAS” (2013).
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