Resenhas

por Otavio Furman

hemong

I

“Escreva bêbado, edite sóbrio”, segundo Hemingway.

Hoje, pela manhã, uma leve ressaca, um expresso, algumas lacunas de memória, me deparo com 619 palavras, certamente minhas.

Como isso se deu?

Devo submete-las ao meu editor?

Meses, anos, e nem uma única resenha; décadas e no máximo, o livro ainda na memória de Lotte, também personagem, Thais Lancman, e Rennan Martens, meu editor, jovens então; séculos, milênios, e na verdade desde já, sendo esquecido.

“Tudo é vão”.

Bons amigos, com os livros, me aconselharam a aposentadoria.

“No auge, como o Pelé”.


“Anna foi enviado agora para certos nomes do meio acadêmico, é uma importante fatia, e o livro acabou de sair.

E, como sabemos, é um livro para um público específico.

Pensemos que grandes editoras pagam por resenhas.

É uma guerra.

Elas demoram, mas aparecem”.


Proust pagou a edição dos três primeiros volumes do Em busca do tempo perdido, e o resto foi publicado postumamente.

Saul Bellow teve um adiantamento milionário pelo Herzog.

Os fortes boatos sobre uma primeira resenha (que, se de fato existente, certamente teria sido feita sem que o livro tivesse sido lido), se mostraram uma pequena chamada amistosa numa revista comunitária.


“Recomendo paciência.

Note que a grande maioria dos prêmios literários contemplam livros um ano depois de seus lançamentos, o que não é mera coincidência.

Além da qualidade literária, um livro depende de fatores como divulgação, mercado, tema e um possível boom literário.

No último Jabuti, o prêmio de romance foi para um autor que publicou seu primeiro livro em 1993.

Bernardo Carvalho foi agraciado com o seu primeiro prêmio Jabuti em 2004 e agora, dez anos depois.

Em conto, venceu Rubem Fonseca, que dispensa apresentações.

O caminho é longo”.

II.

Então, sobre o que se tratam os livros?

Hans os publicou aos 55 e aos 59 anos de idade, um “autor maduro”.

Livros, pelo menos graficamente, muito bonitos.

Teve sorte com os editores.

Quanto ao texto, anotou: Tinha bom material, tive um surto, escrevi dois livros.


Anna é um texto cheio de referências, mas é mais do que isso!

Segundo Thais Lancman, é forte, cheio de imagens bonitas, muito contemporâneo. O meta-texto, as citações, os saltos no tempo e no espaço; e adoro a combinação da natureza da Patagônia e do Peru com Coetzee e os irmãos Glass.

Ao mesmo tempo que a parte histórica é densa, achei agradável de ler.

Adorei as inserções tipo “se não me falha a pesquisa” (que, nesse caso, é do meu editor, não minha), deixaram o texto entre gêneros, e mais interessante.

O conto A viagem é excelente, muito bom mesmo, segundo Roberto Comodo.

São impressões, sensações, sentimentos, coisas subtendidas, implícitas.

Acho que sempre é melhor a eloquência do não dito explicitamente.

Mas o melhor é que o conto foi escrito com o coração.

O tom de pesquisa e de exposição científica dialoga perfeitamente com o enredo. Texto carregado de muitas informações e referências, muitas elipses, mas fluido. Ares de fábula, segundo meu editor.

Algumas palavras e expressões hebraicas não traduzidas como Zvi Migdal, Lamed Vovnik, Shivá, Matsevá, Halachá, Din Torá, para um goy como eu, guardam um certo mistério, num clima que lembra alguns contos do Borges.

O conto Mendes Silva é altamente justificável.

Os Jesuítas foram a tropa de choque da Igreja Católica, vinham na frente dizimando tudo para a conversão.

Segundo Marcelo Nocelli, Daniel, como literatura, é muito bem escrito.

Quanto à história, comovente.

Confesso que me emocionei em diversa passagens.

O fato é triste, muito triste, e você transformou isso em um lindo livro.

Parabéns: fez em livro o que Daniel provavelmente faria – escrever, escrever como escritor profissional.


E, claro, como sempre, como em tudo na vida, contrapontos:

Achei confuso.

Se você gosta tanto de escrever, por que não faz um curso disso? Deve ter lugares que ensinam esse tipo de coisa.

Otavio Furman, psiquiatra, casado, uma filha, amigos, pacientes, editores; dois livros escritos sob forte influência de todos.
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