Paixão

por Santana Filho

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fotografia: elliot erwitt

Outra vez a paixão.

A graça onde bocejava o tédio; o espelho agora insuficiente para tantas consultas, o lixo empurrado pra debaixo do tapete com o bico da sandália e, da janela, domingo de sol, o aceno da montanha-russa. Três loopings no escuro riscando cometas no céu de estrelas, várias cadentes, algumas desnorteadas, todas ensandecidas. E, de ponta-cabeça, seus braços estirados no vazio, vupt!

Paixão é um grave. Torna-se agudo no desempenho, mas ruge em contralto no peito. Digamos que você a credencia com a gravidade do Pavarotti e a interpreta com a destemperança de Callas, você a Carmem. Aliás, as duas: a cigana de Bizet e a outra, a dos balangandãs, que agora você não tira das mãos, são seus malabares.

A paixão traz na valise tantas promessas e tamanha vitalidade, que qualquer pequena ameaça promove hematoma na alma, seguida da falta de ar que, sim, desta vez te levará a nocaute. Por isso tantos telefonemas, emails, torpedos, e as esperas que não se esgotam: pelo toque do celular, pelos emails, a campainha, torpedos, pelas mensagens, os sinais de fogo, a prova de que nada mudou desde que se viram pela ultima vez, cinco minutos antes.

Uma sentença pronta pra explodir: Abram as janelas porque eu preciso respirar!

Que não será dita, porque paixão é pra ser vivida na poluição, os olhos ardendo, o coração aos galopes e a boca seca. Ou não deveria, mas são poucas as que resistem a lufadas de ar. Ar circulante é perigoso, paixão tem pavor de espaços abertos e olhares externos. Uma folha de arruda atrás da orelha e sal grosso espalhado pelos cantos da alma e por dentro dos vestidos, dos rejuntes, nas bainhas.

A maluca, além da fumaça, solicita óculos escuros, descongestionante nasal, cortinas fechadas, mudança de repertório no Ipod e uma miopia colossal. Nada diferente de neon e taquicardia terá qualquer importância, e, ok, um tempo naquela vida reles, naqueles amigos às voltas com amorezinhos acomodados há muito pedia espaço. O lema permanecerá a frase com a qual você fuzilou, dias atrás, a amiga racional, descrente e solitária: O amor entorpece os acomodados, mas a paixão mobiliza os incomodados; tá bom pra você?

Será assim que iremos rasgar o manto da mediocridade; aos gritos silenciosos.

E segue, apertando a bolsa na axila, o sapato de salto, óculos de sol, lenço vermelho no pescoço e a saia muito justa lascada atrás.

É quase certo que paixão é para ser vivida de copo na mão. Será com ele, alguns comprimidos de Rivotril, duas ou três canções desesperadas e aquela única amiga que sobreviveu ao bombardeio: ‘Afinal, ele está ou não está interessado em mim?’, que você enfrentará este mundo hostil. Sim, porque passado o entusiasmo inicial, ninguém vai ter paciência de participar deste tour-de-force a seu lado – você já deve ter percebido que as pessoas não são um primor de sensibilidade. E mesmo esta amiga sobrevivente correrá o risco de evaporar quando você afinal abrir seu coração e fizer a pergunta definitiva: ‘Afinal, ele está me amando, ou não está?’.

Diante de tamanha insegurança, você vai se sentir flagrada pelas garras da lei. Todas as suas (antigas) qualificações sob júdice, ‘sou uma farsa e ele vai descobrir’. Seus temores, correndo sem segredo de justiça, a um passo de ser desmascarados. Em outros tempos isso não seria grande coisa, afinal você também aprendeu com a canção que a língua do povo é contumaz traiçoeira. Neste momento, porém, qualquer avaliação de sua pessoa passa pelo cajado deste juiz implacável, e atender a suas exigências vai se tornando uma gincana exaustiva.

Mas – sempre um mas – um belo dia bate a saudade daquele pijama esgarçado que foi parar no fundo da gaveta após ser desbancado pelas lingeries de última geração. Vai lembrar que aprendeu a amar com a Maria Bethânia: Explode coração!, mas está na hora de recorrer ao sempre jovem Nelson Mota: A vida vem em ondas como o mar, e dar uma surfada por aí, por que não?

Como Santa Rita de Cássia cochila, mas não dorme no ponto, você consegue desmarcar o jantar dessa noite, e sem inventar nenhuma desculpa espetacular, vai direto ao ponto:

Aluguei ‘As Delícias De Viver Só’, e tô a fim de assistir sozinha.

Só hoje, viu? – conclui, com voz de ninfeta resfriada, quase por vício.

Começou a se montar a rebelião.

O filme dessa paixão vem à cabeça, de trás pra frente, e detalhes da cenografia, antes despercebidos, tomam corpo, diálogos negligenciados adquirem nexo, e figurantes inexpressivos ameaçam os atores principais. Tudo levará a crer que você não era apenas a primeira atriz, mas a própria autora deste roteiro vibrante.

Segue evocando detalhes e situações, enquanto estoura pipocas no micro-ondas, até perceber, por exemplo, que o ‘mea culpa’ da noite passada era absurdamente equivocado, e um bom vasodilatador peniano a teria poupado de acrobacias dispensáveis para quem já passou dos trinta.

“Eu não acredito!”, berra, em fúria, Poliana-menina, equivocada até o último cachinho de cabelo. Tempera com sal e manteiga de garrafa a pipoca ainda quente e sobe a escada em direção à cama de casal.

Súbito, o doce pássaro da liberdade entra pela janela aberta, sobrevoa o quarto, dá um rasante em seu ombro com sardas, mordisca três ou quatro grãos da pipoca, aquieta-se, e alguma tranquilidade vai tomando forma, procurando lugar entre os lençóis, aninhando-se por ali, e você respira pela primeira vez desde o verão passado.

Poderá, afinal, desligar a TV, acarinhar o travesseiro vazio, se alongar na cama, dos pés à cabeceira, e hibernar pelos próximos oito anos quando, em outro irreverente domingo, vai abrir a janela e perceber que o parque de diversões retornou à rua, e ela, a montanha-russa, voltou a acenar outra vez.

JOSÉ SANTANA FILHO NASCEU EM BALSAS, NO INTERIOR DO MARANHÃO. PASSOU A INFÂNCIA EM CIDADES ÀS MARGENS DO RIO TOCANTINS E VIVE EM SÃO PAULO DESDE 1982, QUANDO SE FORMOU EM MEDICINA. É AUTOR DO ROMANCE “O RIO QUE CORRE ESTRELAS (2012)”, SEU LIVRO DE ESTREIA, DO VOLUME DE CONTOS “O BEIJINHO E OUTROS CRIMES DELICADOS” (2013), AMBOS PUBLICADOS PELA EDITORA TERRACOTA. PELA REFORMATÓRIO PUBLICOU O ROMANCE “A CASA DAS MARIONETES”.
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