Qumran

por Otavio Furman

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Arquétipo, arche tipós: primeira impressão.
“Constante repetição de uma mesma experiência durante muitas gerações”.
“Tendência estruturante dos símbolos”.

 
1
Quanto ao enredo: pretensiosamente, a história da viagem de um jovem de Atenas
à Qumran, como um personagem do Bellow em Chicago, Citrine ou Herzog, “um
intelectual que sofre uma crise metafísica que o torna estranho ao mundo”, não
“ternos bem cortados”, mas sandálias, cabras, no deserto da Judeia.
Qumran, então, distante um quilômetro do Mar Morto, doze de Jericó, vinte de
Jerusalém, numa fissura do deserto, entre duas fendas profundas, dois wadis,
hoje disputado por Israel e Palestina, era uma ocupação essênia, habitada desde o
século 8 aC, descrita como um “oásis fortificado”, ampliada entre terremotos,
incêndios e invasões, até, no século 1 aC, ser uma “fortaleza para os piedosos”,
com estrutura para trezentas pessoas.
Os essênios eram judeus ascetas, viviam em comunidades isoladas, reclusos,
mantendo as leis bíblicas rigidamente, tendo normas, costumes, “interpretações”,
diferentes dos saduceus e dos fariseus.
Talvez “o começo da dissidência que levou ao Cristianismo”.
A vinda do Messias era “evidente”, segundo Lucas, “o povo estava em
expectativa”.
No livro de Isaíashá uma “voz” mandando-os para o “deserto”, para “tornar reta
a estrada para Jafé”.
Os livros mais encontrados em Qumran foram os Salmos, Deuteronômio e
Isaías.
Com a destruição da fortaleza pelos romanos, a “monumental biblioteca” foi
escondida nas montanhas.

2
A questão da “vaidade humana”, segundo Nietzsche, é devida ao horror vacui, “à
necessidade de um fim”.
E, onde pesquiso, ele narra a “história dos homens resolutos que um dia
opuseram sua negação a toda servidão e se foram para algum deserto”.

O ideal ascético: pobreza, castidade e humildade.
“Mas não que se trate de virtudes, homens superiores não ligam para virtudes,
mas como condições próprias e naturais para a expansão da existência.
Um freio ao orgulho, à sensualidade, ao sofrimento, para manter sua vontade de
deserto, contra uma inclinação pelo luxo e rebuscamento, uma obscuridade
voluntária, uma fuga de si mesmo, uma aversão profunda ao barulho, pela
admiração, pelo jornal, pela influência.
Um pequeno emprego, alguma coisa de cotidiano, que esconde mais do que põe
em evidência, as vezes a sociedade de animais, montanhas para fazer companhia,
um simples quarto de hotel cheio de gente, onde se tem a certeza de estar perdido
na multidão e de poder impunemente conversar com todo o mundo, eis o deserto.”

3
Bíblia, do grego, “livro”.
“Textos organizados pelo judaísmo rabínico para o seu cânone”.
Harold Bloom usa o termo Bíblia Hebraica.

“Antologia de nove séculos de trabalho”.
Há “história, narrativas ficcionais, muita mistura de ambos, listas de leis e
regulamentos técnicos de culto, profecias em prosa e verso, obras aforísticas e de
meditação, poemas de culto e devoção, livros de lamentação e vitória, poemas de
amor, tábuas genealógicas, contos etiológicos, descrição de fronteiras tribais,
itinerários históricos, citação de fontes”.
Não sobreviveram pelo menos o livros das Batalhas de Jafé e de Yashar.
A própria Bíblia refere-se a esses livros como “crônicas históricas e mitológicas”.

Os textos mais antigos são os Manuscritos do Mar Morto, encontrados em
Qumran na década de 1950, datados do século 1 aC, sendo assim de um milênio
depois da “composição original”.
Antes os escritos antigos conhecidos eram do século 10.
E antes, por séculos, “formulações circularam primeiro em tradição oral na prémonarquia da história israelita”.

4
“A idade de ouro da narrativa hebraica foi a da Primeira Nação, quando a
sequência do Gênesis à Reis recebeu sua formulação inicial, até 600 aC, um
período de quatro séculos pós exílio.
Há uma notável variedade no corpo do texto, que deriva dos longos séculos
pelos quais ela evolui… dos diferentes gêneros, diferentes autores”.

No período da Segunda Nação, séculos 5 e 4 aC, na Judeia, com o fim do exílio
na Pérsia, o Templo reconstruído, a história, “se não composta, foi ao menos
editada por Isaías, Jeremias e Ezequiel”.
“Onde estava a linha divisória entre autor e redator, quanto de liberdade tinham
ao trabalhar os textos?”

E a identificação desses autores / editores sendo feita pelo estudo das “conexões
de estrutura do texto, recursos léxicos, filologia comparativa, sentido das
denotações e conotações, matizes das palavras, razões textuais, elementos como
disjunção, interpolação, repetição, estilos contrastantes”.

5
O livro de Ester encontrado em Qumran, uma peça em pergaminho com sete
metros de comprimento, enrolada em ébano, em aramaico, “propõe representar
eventos na corte imperial persa em Susa… transcorre numa terra de contos de
fadas… um desfile das mais belas do reino dirige-se ao leito real noite após noite,
cada beldade magnificamente preparada para o deleite do rei… banhadas em óleo
de Mirna e perfumes variados… havia renda, musselina e púrpura atadas por
cordões de linho e de escarlate sobre anéis de prata… colunas de alabastro, divãs
de ouro sobre um pavimento de jade, nácar e azeviche”.

6
Solitude é o estado de estar sozinho, afastado, isolado, sem companhia.

Solidão é um sentimento relacionado a falta de compreensão, empatia.
Escreve-se sobre “desconexão social”.
É mais frequente nas grandes cidades, as “multidões anônimas, a quantidade de
pessoas que entramos em contato aleatoriamente.
Não há qualidade, profundidade nas relações.
Há uma palavra nova: extimidade.
Um contraponto à intimidade, uma “evasão da intimidade”.
Segundo uma pesquisa, as pessoas tem em média dois amigos próximos, um
geralmente o cônjuge.

A solidão para o existencialismo é uma “condição humana”, a “essência do ser
humano”.
As questões existenciais: as relações cotidianas (“O inferno são os outros”), a
impotência, o silêncio, a solidão, o absurdo da vida.

7
Então, de volta à história, o jovem em viagem no longínquo primeiro capítulo,
páginas atrás, foi entre os coptas, no Egito, século 3, cristianismo primitivo, um
“asceta”, um dos mais importantes “padres do deserto”.
Nasceu em 192, em Tebas, Grécia, família nobre, pagã, “politeistas”.
Foi obrigado a entrar no exército romano com dezesseis anos, foi mantido depois
como escravo, converteu-se e foi batizado.

Viveu como monge anacoreta, como um eremita, “sem contato com o mundo,
renunciando à seus bens e à sociedade”, retirado sozinho no deserto.
“O deserto no aspecto geográfico e como metáfora.
É no deserto que Deus fala com Moisés”.

Quando na condição de eremita sua fama começa a atrair multidões de
seguidores, junta-se a uma caravana de beduínos e vai à Qumran.
Buscava a Hesychia, do grego: quietude, silêncio, paz.
“A maior parte das relações sociais são um impedimento para isso”.
Teria escutado uma voz:
– Onde vais, e porque?
– Multidões, incômodos.
– Se realmente queres ficar consigo mesmo, vai para o deserto.

8
As práticas ascéticas corporais: abstinência, jejum, vigílias, silêncio, despojamento.
Ao morrer deixou três mil mosteiros e uma geração depois eram dez mil no
Oriente Médio, norte da África, Europa.
A vida passou a ser “retirada, mas em comum”.
Viviam em “lavras”, colônias, num “conjunto de celas… cada um na sua cama,
com uma candeia acesa sem interrupção, vestidos e cingidos com cintos e cordas,
sem as facas ao seu lado, sempre prontos para, assim dado o sinal, levantar-se
com toda a gravidade e modéstia”.

São “escolas de serviço ao Senhor, onde com o progresso da fé pode-se correr
com uma indizível doçura de amor o caminho da salvação.
Especialmente o vício de possuir alguma coisa de próprio deve ser corrigido pela
raiz. Nem o próprio corpo, nem a vontade. Seja tudo comum a todos”.
Desde o século 6 seguem as Regras de São Bento, escritas no mosteiro de
Monte Cassino, por Bento de Núrsia.
A súmula é Ora et Labora, tem 126 citações da Bíblia.

9
E houveram monges peregrinos como os Munnis, Rishis, Sannyasin, Bikkus.
E ordens militares, mendicantes…
E desde os primeiros ascetas, os monges giróvagos, que não aceitam nenhuma
ordem, não reconhecem superiores hierárquicos, não obedecem regras.
Nos mosteiros são considerados “degenerados… andam de cela em cela…
vivem de esmolas”.

No século 4 o Conselho de Nimes condenou esse “desvio”.
Em 451, no Concílio de Calcedônia, “sob a autoridade do imperador Marciano, foi
imposta a obrigação de estabilidade monástica”.

Esses monges se mantém na tradição das igrejas orientais e são personagens
frequentes na literatura russa do século dezenove.

OTAVIO FURMAN, PSIQUIATRA, CASADO, UMA FILHA, AMIGOS, PACIENTES, EDITORES; DOIS LIVROS ESCRITOS SOB FORTE INFLUÊNCIA DE TODOS.
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