Duas cidades

por Decio Zylbersztajn

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Se o livro impresso realmente desaparecer, como se cogita, ficarei órfão da minha pequena biblioteca. Talvez outros compartilhem semelhante sentimento de orfandade. Se ocorrer o desaparecimento do livro impresso, futuras gerações não mais poderão perder agradavelmente o seu tempo, a limpar livros, o que lhes roubará a chance de ter surpresas como a que me ocorreu hoje. Entre uma espanada e outra, para tirar o pó das estantes, encontrei os livros da coleção Claro Enigma, cuidadosamente editados pela Duas Cidades nos anos 80, cada volume protegido por uma sobrecapa de plástico com acabamento esmerado. Os livros, cada qual com a dedicatória do autor, me causaram a grata sensação de ler as mensagens recebidas de José Paulo Paes, Orides Fontela, Alcides Villaça, João Moura Jr., entre outros. A minha mente rapidamente me levou até a Rua Bento Freitas 158 em São Paulo, outrora endereço da Livraria Duas Cidades, que eu visitava com regularidade, nas paulistanas manhãs de sábado.

A livraria tinha três elementos fundamentais que me atraiam. Primeiro os livros de qualidade, que refletiam a preferência humanista do seu fundador e dos frequentadores. Segundo, uma mesa ao fundo, ao redor da qual se acomodavam pessoas interessantes, algumas que eu desconhecia, e que invariavelmente me diziam algo que sugeria uma identidade comum. Terceiro, a presença suave de Maria Antonia, que preenchia o ambiente indicando livros, encontrando ou encomendando aquele que eu desejava, separando um livro infantil para o meu filho, e me dando o desconto solicitado. Para mim, a Duas Cidades era formada pelos três pilares – uma mesa democrática, bons livros e Maria Antonia – todos elementos profundamente humanos – que tornavam felizes as manhãs dos meus sábados.

A livraria fora fundada por José Petronilo Benevenuto de Santa Cruz no início dos anos 50, e trazia uma intenção no seu nome. As duas cidades estavam significadas no logo escolhido; duas torres sobrepostas a indicar a cidade celestial e a terrestre. Como editora, a Duas Cidades produziu livros importantes, abriu espaços para a poesia, como exemplifica a coleção Claro Enigma. Editar poesia hoje ou nos anos 80, é um ato de coragem. Coragem não faltou ao Frei Benevenuto e nem a Maria Antonia, que nos anos de chumbo abrigaram muitos que sonhavam com a liberdade perdida nos anos 60 e 70, como Frei Fernando e outros nomes de intelectuais que pediam por um país livre, educado, e cheio de livros. Talvez um sonho parecido com aquele que Baleia teve no livro Vidas Secas de Graciliano Ramos, quando, esfomeada, imaginou muitas preás gordas ao seu redor. Quanta felicidade haveria em um mundo cheio de preás e de livros. Nasceu, a Duas Cidades, como uma livraria e tornou-se naturalmente uma instituição, um polo cultural, um ponto de encontro irradiador de ideias. Ao longo de décadas frequentei os espaços daquela livraria. As noites de autógrafos da coleção Claro Enigma, nos anos 80, reforçaram o meu gosto pela poesia. Me recordo – de modo particular – de Orides Fontela, a refinada escritora maldita que vivia á margem, cuja luta poética, que segundo Antonio Candido, “resulta na possibilidade de transformar a vida em palavra”. Já nos anos 2000, eu visitava a Duas Cidades acompanhado pelo meu filho Breno, que anos depois – já adulto – me confidenciou ter guardado na sua memória de infância, as visitas feitas `a livraria. Depois seguíamos para a loja da Aerobrás, onde ficávamos a namorar os aeromodelos, e para a loja Aquários Brasil, onde se podia ver os peixes coloridos nos mil aquários borbulhantes.

Não seriam, nem a ditadura, nem a proximidade com a Rua Aurora – presente na memória de gerações de paulistanos, com os cines, as produtoras de filmes pornô e atividades correlatas – ou o pequeno mercado brasileiro de livros, reflexo do país com educação precária, que iriam ferir de morte a livraria. O tiro fatal veio em 2006, fruto da decadência, da desocupação do centro da cidade e do pouco caso com o espaço urbano compartilhado. No lugar das ruas frequentadas pelos cidadãos, tão fundamentais para a vida urbana como explora Antonio Risério, surgiram os espaços fechados dos shopping centers. Os lugares dando lugar aos não lugares, como definiu Marc Augé. A cada visita que eu fazia ao espaço da livraria, ouvia queixas de Maria Antonia, sem ter como dar-lhe algum alento. Certa feita ela se debatia com a prefeitura pelo direito de plantar algumas árvores na calçada, para melhorar o ambiente, já árido, da Rua Bento Freitas. Sem sucesso. Ao fim de longo processo, a decisão pelo encerramento das atividades foi inevitável. A decisão tomada veio a público com o anúncio, para mim sofrido, de uma liquidação do acervo de livros. Covarde, preferi não assistir a esta cena.
Li várias crônicas sobre o episódio do encerramento das atividades da livraria, escritas por pessoas que experimentaram as mesmas sensações que eu tive. A sensação de perda foi captada antecipadamente na poesia de José Paulo Paes, chamada Taquaritinga, sua cidade natal, visitada em algum momento da sua vida. No livro da coleção Claro Enigma que leva o título; “ A poesia está morta, mas juro que não fui eu ”, o poeta canta:

cidade:
nas ruas em pé
eternas namoradas me espreitam
eu é que não posso vê-las

cidade:
no jardim a fonte
insiste em jorrar
suas águas luminosas
só que me falta a sede

cidade:
agora nem as pedras
me conhecem

As cidades mudam e eu já me acostumara `a falta do espaço para as manhãs dos sábados. A mesa ao fundo da livraria passou a ocupar apenas algum local na minha mente. Eu passei a comprar livros pela internet e cheguei até mesmo a baixar alguns textos via e-book. A vida seguiria o seu curso, estava convencido. Até que um dia, desembarquei na Estação do Metrô da Praça da Sé, a caminho da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Quando avistei a livraria da UNESP, resolvi entrar. Afinal de contas, uma livraria sempre tem algo que pode interessar. Rodei pelas prateleiras e me lembrei de um livro que buscava. Quem sabe? Fui até o balcão para pedir informação sobre a obra. Chamei por uma senhora dentro do balcão, que de costas para mim atendia ao telefone. Ela virou-se e olhou na minha direção. Reconheci Maria Antonia. Estava feliz em meio aos livros que representam a sua vida. Trocamos algumas palavras e ela perguntou pelo meu filho.

Hoje voltei `a Praça da Sé onde visitei Maria Antonia, na livraria da UNESP. Fui para agradecer presenteando um exemplar do meu primeiro livro de contos, “Como são Cativantes os Jardins de Berlim”. Uma pequena homenagem a alguém que incorpora o papel da casa de livros. Salvar vidas, formar leitores, e quem sabe, escritores.

Há esperança. A gráfica está pronta.

São Paulo, maio de 2014

Decio Zylbersztajn nasceu em São Paulo em 1953, no bairro do Bom Retiro. Estudou na escola pública, que ao final dos anos 60 tinha excelentes mestres, que o motivaram para as artes e ciências. Foi professor visitante nas Universidades da California (USA), Wageningen (Holanda), Perugia e Benevento (Italia). É professor titular na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP.  Junto com Roseblue, criou o Vereda Violeira, um duo de viola cabocla e voz que resgata a música tradicional de raiz e organiza saraus de viola e literatura. Pela Reformatório, publicou “Como são cativantes os jardins de Berlim”.
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