O Êxtase de Judite

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por Marcelo Maluf

“Deus tem outro modo de despertar as almas”.

Santa Teresa D’Ávila

Pai

Um corte em diagonal no supercílio, causado por uma ave ao colidir com o seu corpo em queda livre fez com que Judite chorasse a dor do pássaro e se lembrasse do seu primeiro amor atropelado por um trem cargueiro. Murilo lhe dedicava poemas e dançava diante de sua janela. Depois lhe veio à memória a cadela vira-lata afogada no lago da fazenda do avô. Chinelinha. E Ismália, a melhor amiga, morta, caída do alto de uma roda gigante. Morreu com uma maçã do amor na boca.

Mas foi quando os seus pais faleceram, a mãe, vítima de câncer na tireoide e o pai atingido por um coice de cavalo, que Judite gritou rebelada dentro de uma igreja: ASSASSINO! E teve a certeza, olhando para a imagem do Cristo crucificado, de que Deus matava impiedosamente e não aceitava amor que fosse maior que o dele. Martirizava os santos por isso. Aos odiosos e desalmados entregava vida longa e boa fortuna.

No mesmo dia – em que denunciou aos berros os crimes do Criador – decidiu entregar a sua vida a Ele. Era para se vingar que ela jejuava, meditava e orava. Para se vingar, fez voto de pobreza e absteve-se de sexo. Ficou três anos em silêncio. Para se vingar amava-o mais do que tudo e devotava cada minuto de sua vida a Ele. Para se vingar é que Judite era admirada como candidata à santidade pelo grupo de monjas carmelitas do convento em que vivia enclausurada. Esperava ela que por tanto amá-lo, Ele cometeria suicídio, apenas para que ela não o superasse em seu amor. Assim, estaria vingada, teria valido a pena todo esforço de amar.

Filho

Ainda em queda livre, Judite levou uma das mãos ao corte para estancar o sangue e viu, no horizonte entre as montanhas, os olhos Dele vigiando o seu fim. Afastou a mão do corte para que Ele pudesse ver com nitidez o quanto ela sangrava.

De todas as carmelitas, Judite era a mais dedicada. Passava, às vezes, cinco dias sem dormir, em oração, jorrando misericórdia em pleno gozo místico, dizia palavras de amor e servidão. Extasiada. Um dia Ele lhe concedeu a graça de senti-lo. Primeiro na pele, depois no profundo da carne. O centro do peito em expansão até atingir o topo da cabeça. Foi encontrada nua, o corpo em febre, na capela do convento.

Em seu voo para a morte, avistou a casa de sua infância e a velha macieira no quintal onde o pai, num balancete improvisado feito com pneu de caminhão, a empurrava e recitava trechos do evangelho: “Amai os vossos inimigos…”. E ela a sentir o vento entre as pernas. Essa imagem colonizava os seus orifícios. Ela ria com a lembrança.

Quando, numa manhã, Judite acabou de orar, um impulso lhe tomou o corpo e desejou enfeitar-se. Despiu suas vestes de monja. Retirou do armário o vestido negro de cetim de sua juventude, que ainda lhe caia bem nos contornos de mulher madura. Lavou-se e ungiu-se com óleo, penteou a cabeleira seca, calçou os mesmos saltos que desde os vinte anos de idade ela não usava. Encontrou no fundo da gaveta, brincos, braceletes e batom. Fez-se bonita. Atravessou o corredor do convento sob os olhares espantados das irmãs. Penetrou a rua, deixando a clausura depois de trinta anos. Não demorou muito e Judite percebeu-se admirada pelos homens da região. Alguns propuseram casamento. Ela se envaideceu. Subiu pelo ventre um gosto que logo identificou como o gosto de Deus.  E pousou em sua língua. Sôfrego. Compreendeu que fora enganada e seduzida por Ele. Tratava-se de uma emboscada do Criador. Uma jogada de mestre, ela admitiu.  Mas Judite não se deu por vencida. Correu para a montanha mais próxima e seguiu para o seu cume. De lá, vestida como para uma festa, ela se lançou em queda livre.

Espírito Santo

Judite percebeu o chão em alta velocidade ao seu encontro. Esforçou-se e girou o corpo para mirar o céu. Sorriu para Ele, vitoriosa. Sua vingança prometida. Gargalhava. O corte no supercílio transbordou. Ainda assim, bela. Comovente. Iluminada. O povo fez roda em torno de seu corpo. De mãos dadas, eles oravam.  Antes do último sopro, o golpe fatal do Criador, Judite pôde ver que havia recebido as chagas do Cristo. Esforçou-se para capturar o ar que lhe restava e suspirou compreendendo sua derrota: Oh, Deus!

Marcelo Maluf nasceu em Santa Bárbara D’Oeste, no interior de São Paulo, em 1974. É músico e mestre em artes pela Unesp. Autor do livro de contos Esquece tudo agora (2012) e do infantil As mil e uma histórias de Manuela (2013), entre outros. “A imensidão íntima dos carneiros”, lançado pela Editora Reformatório, é seu primeiro romance. Vive em São Paulo desde 1999.
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