Último domingo de outubro

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por Menalton Braff

Último domingo de outubro, nenhuma nuvem para estragar o passeio. Em volta da mesa do café, os cinco mastigam apressados. Enfim, a pescaria tantas vezes protelada acontecerá. Novembro já entra no período de defeso: proibido incomodar os peixes em sua casa silenciosa. E quem mais rápido mastiga é o Eduardo, excitado com a promessa a se cumprir. De nada adiantam as advertências da mãe para que mastigue direito. As duas irmãs, que sempre detestaram os piqueniques de domingo à beira da lagoa, riem deliciadas com a careta do Eduardo, que acaba de queimar a língua com o café quente. O garoto é o primeiro a abandonar a mesa, e tão ansioso que nem pede licença, como reclama a mãe. O pai sorri. O dia de folga e a possibilidade real de satisfazer o velho pedido de seu filho criam o estado de euforia há tanto tempo desconhecida. O Eduardo corre para os fundos da casa, volta com as varas, um molinete, a carretilha e a maleta com as tralhas, levando tudo para o carro. Volta e pede a chave ao pai, Sim, no porta-malas, eu sei. Tudo pronto, ele volta e ainda encontra a Nair terminando seu desjejum. Os outros já andam por aí, escovando os dentes, arrumando a roupa apropriada para um dia inteiro à sombra de alguma árvore, fazendo hora, essa falta de pressa só pra me irritar, não é? Vai num, vai noutro, empurra, fala, quase chora, mas em poucos minutos consegue empurrar a todos para dentro do carro.

A viagem de pouco menos de uma hora até poderia ser uma viagem agradável, os vidros abertos, a brisa agitando os cabelos, o ruído monótono do motor, tudo uma paz profunda e azul. Poderia, não fossem as duas irmãs mais velhas com seus semblantes pesados, e o rancor de umas poucas palavras que se arrastam até os lábios apertados e rolam para fora como gemidos. O Eduardo, que viaja feliz, faz a observação: − Se todos os domingos do ano são delas, porque agora se irritam no único que me coube? A mãe, sentada com as filhas no banco traseiro e o pai, mãos firmes no volante, sacodem concordâncias com as cabeças. As duas, muito quietas, mas de olhos em observação, percebem que lhes tiraram todas as razões, por isso, apertam-se as mãos, sinais imperceptíveis, e resolvem desatar os nós que as separam da alegria familiar.

O bosque escolhido fica vizinho da lagoa, pouco mais de trinta metros de relva. E a árvore que sustenta uma copa ampla e bem fechada é o lugar onde as mulheres estendem esteiras, cobertores, enquanto os homens descarregam cestos, caixa de isopor com as bebidas e a churrasqueira. Todo serviço pesado no fim, o Eduardo aparece com seu material de pescaria: uma vara, a maleta com as tralhas e desce na direção da lagoa. Logo atrás desce o pai, com o molinete, sua maleta, e senta-se ao lado do filho, ambos debaixo de abas com sessenta centímetros de diâmetro. A preparação de linhas e anzóis é lenta, minuciosa, em tudo o filho imitando o pai. O pai faz uma observação e, por fim, o Eduardo consegue a voltinha que vai dar melhor fixação à linha. Em volta, o canto do vento nas copas e o alegre gorjeio de ror de passarinhos de cores quase impossíveis. Finalmente e com ar de triunfo, o menino joga na superfície parada da lagoa seu anzol, que mergulha deixando apenas a boia como indício do que pode estar acontecendo lá no fundo. O pai se prepara para lançar ao longe, no meio da lagoa, sua linha, quando toca o celular. Ele faz careta de desagrado. Quem será?, o pai resmunga. − É meu diretor, cochicha para o filho. Então se afasta e vai parar em uma sombra bem distante da esposa e dos filhos. Mas todos percebem que sua gesticulação é angulosa, desesperada.

− Mas doutor Geraldo…

− Não tem mas, Arlindo. Não tem mas. Nós estamos pagando a descarga por hora. E só você pode liberar aquela papelada.

− E a minha família, doutor Geraldo?

− Você vai e volta. Sua demora, Arlindo, pode custar-nos caro.

O pai se despede e desliga o celular, sai apressado, dizendo que fiquem por ali que ele já volta. Entra no carro e sai cantando pneus. A mãe comenta com as filhas seu pai saiu incomodado, aquela expressão de raiva na testa e nos olhos.

Agora ficou uma família debaixo de umas árvores, esteiras e cobertores estendidos sobre a relva, uma churrasqueira montada em quatro pernas finas e pretas com o ventre repleto de carvão seco e apagado. Elas olham para a promessa de almoço um pouco desenxabidas. As três, sentadas na esteira, estão atentas para o movimento do Eduardo na margem da lagoa, pois parece que luta contra um peixe, deve ser um peixe, um peixe que se debate em contrações espasmódicas, que pula, se contorce e despede reflexos prateados de seu corpo agitado. Entre elas, o silêncio quer dizer que estão espantadas com o filho e irmão que possuía uma habilidade desconhecida, e isso o eleva acima de sua condição infantil. Estão quietas e admiradas. Por fim, depois de machucar o joelho e receber um corte na mão, o menino, vitorioso, ergue um peixe lindo e claro, brilhante como uma lâmina móvel, e grita por sua conquista. Mas não existe glória sem plateia, e a mãe com suas filhas não são o público a que ele aspirava. O pai foi chamado, atraído por ondas que chegam pelo ar para que ele cumpra sua sina. Ao jogar o peixe no samburá, sente a solidão em que se encontra, e seus gestos perdem o sentido. Sem solução para seu tempo, prepara-se para novas lutas. E arremessa o anzol que, ao mergulhar, levanta lágrimas da lagoa.

Alguns peixes a mais no samburá, sua mãe desce à beira da água e começa a prepará-los para o almoço. Suas filhas, com ar azedo, lábios contraídos e dedos de pontas sensíveis, já estão ateando fogo no carvão da churrasqueira. Com grande dificuldade e perigo, pois as labaredas se esforçam por atingi-las. E o pai, será que ainda demora? O pai? Durante o almoço, começam a aparecer as primeiras nuvens. São lentas e silenciosas, mas densas e escuras. Elas são antecipadas por um vento brando, mas fresco tendendo para frio. A irmã mais velha termina seu almoço e enrola-se em um dos cobertores, como se atacada por uma febre.

A tarde se esvai e Arlindo consulta o relógio à passagem de cada cinco minutos. Finalmente solucionada a burocracia, encaminhada a descarga, ele embarca no carro e volta para a estrada. Calcula em duas horas para vencer a distância que o separa da família. Duas horas de estrada. Vai chegar lá antes da noite. Pensa em desligar o celular, mas lembra-se de que está impedido de fazê-lo. Existem laços na existência cuja ruptura pode provocar algum desastre. Apenas afunda um pouco mais o acelerador.

Ao se aproximar do bosque onde deixou a família, fica em dúvida sobre o local, pois não há vestígio algum de que estiveram ali. Mas reconhece o jirau onde pretendia pescar ao lado do filho. O céu está escuro, coberto por grossas nuvens, a noite se aproxima. Arlindo grita o nome da esposa, corre das árvores para a beira da lagoa, grita o nome do filho. Sem resposta. Então percebe o azul da camisa de Eduardo boiando sobre a água.

Menalton Braff nasceu em Taquara, Rio Grande de Sul, em 1938. É professor, contista e romancista. Autor, entre outros, de À sombra do cipreste (contos, 1999, prêmio Jabuti de Literatura em 2000 na categoria Livro do Ano – Ficção), Gambito (novela infantil, 2005), A coleira no pescoço (contos, 2006) e A muralha de Adriano (romance, 2007, que recebeu menção honrosa no 50.o prêmio Casa de las Américas em 2009), Moça com chapéu de palha (romance, 2009), Bolero de Ravel (romance, 2011, finalista do prêmio São Paulo de Literatura e semifinalista do prêmio Portugal Telecon).
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