Possessão

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Crédito da imagem: empty, Tuchwerk Aachen por Axel Hartmann

por João Anzanello Carrascoza

Decreto que o pronome possessivo da primeira pessoa do singular, meu, minha, não corresponde à verdade dos fatos, e será abolido da vida que levo, pois: a xícara não é minha, embora a tenha comprado; o irmão não é meu, nem de si mesmo; a vista da janela não pode ser minha, para os olhos que estão em mim é que ela se abre; os olhos não são meus, existem nesse rosto para que me identifiquem; essa casa, adquirida com o dinheiro que juntei por longos anos, não é minha, apenas me permite (por hora) habitar o espaço que ela ocupa; as roupas não são minhas, eu as uso, e, enquanto não se esgarçam, cobrem-me o corpo (o corpo é outra roupa, de carne, que me envolve); as ideias não são minhas, eu unicamente as alço do caos, desbasto as lascas de suas possibilidades, como madeira, e as lixo, até que se tornem lisas; o revólver na gaveta, meu é que não é, tampouco de quem o fabricou, o revólver troca de mãos, não há quem o detenha – mesmo aquele que adquire sua posse, não o possui. Por isso, decreto que o pronome possessivo da primeira pessoa do singular, meu, minha, será abolido da vida que levo (minha não é essa vida, ainda que eu a viva). Há apenas uma exceção: o meu ofício. No ato de escrever, coloco todos os minutos que a existência me permitiu acumular; é a única coisa que inegavelmente me pertence (antes de roubar o tempo de quem me lê).

João Anzanello Carrascoza nasceu em Cravinhos, interior de São Paulo, em 1962. É graduado em Publicidade e Propaganda pela Universidade de São Paulo, onde é professor desde 1993. Em 2013, concluiu, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sua pesquisa de pós-doutorado sobre a interface entre a publicidade e a literatura. É autor de contos e romances, além de obras para crianças e jovens. Possui mais de 30 livros publicados, que lhe valeram alguns dos mais importantes prêmios literários do país: Jabuti, Guimarães Rosa/Radio France Internationale, Fundação Biblioteca Nacional, Fundação Nacional do Livro, APCA, entre outros. É autor de O volume do silêncio, vencedor do prêmio Jabuti 2007, Aos 7 e aos 40, Amores mínimos, entre outros. Para o público infantil e juvenil escreveu as obras Prendedor de sonhos, Aquela água toda e O homem que lia as pessoas.
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