A consulta

consulta

por Lucas Verzola

Ao me deparar com uma prestativa atendente na antessala da clínica vazia em plena tarde de terça-feira, quase me arrependi de ter cedido o ultimato feito pelo próprio médico ao telefone, mas foi só me recordar do irrecusável apelo que qualquer dúvida se dissipou: pelo dobro do preço normal da consulta, teria direito a um atendimento trinta minutos mais breve.

Apesar da ausência de pacientes e da disponibilidade do esculápio em receber-me de imediato, a gentil funcionária fez questão de me deixar esperando por quarenta e cinco minutos além do horário agendado, sem acesso a água ou sanitário, gesto que recebi de muito bom grado como um sinal de que, lá, fariam de tudo para me paparicar. Quando, afinal, meu nome foi anunciado, lamentei que a espera houvesse terminado, contudo tive convicção de que minha agradável experiência apenas começara.

Após ser conduzido por um corredor mal-iluminado, ingressei num consultório de aspecto repugnante, cujas paredes recendiam a umidade e em que prontuários embolorados se espalhavam por todo o espaço. O clínico, por sua vez, se adequava ao ambiente da maneira mais convincente possível: vestia um jaleco impregnado por crostas de sangue já secas, mantinha as unhas compridas e encardidas, deixava a barba falhada por fazer e o cabelo todo ensebado. Eu não podia estar mais satisfeito.

Nunca havíamos estado frente a frente, mas cortesias eram desnecessárias. Ele, muito atencioso, foi direto ao ponto:

– Seu Epicuro, percebo que o senhor de fato trouxe os exames que lhe foram solicitados em cima da hora, o que muito me constrange. Parece que o senhor, de alguma forma, pretende prejudicar o andamento do meu trabalho, o que, sinto-lhe informar, é inadmissível. Dessa forma, não me resta alternativa a atendê-lo por período mais longo que o acordado por telefone. Antes que se manifeste, deixo claro desde já que a consulta mais duradoura sairá pela metade do valor, tendo o senhor perdido a promoção diante da ausência de desídia de sua parte.

Enrubesci de imediato, porém a razão pertencia ao nobre galeno, que já analisava com displicência os meus resultados. Com o descontentamento explicitado na forma de olhares de censura e comentários ácidos, rabiscava com tinta vermelha os índices que mais lhe desagradavam. Como se não bastasse, uma das folhas foi inteira picotada, tendo ele se recusado até mesmo a interpretar os números que lá constavam, até que, enfastiado, rompeu o silêncio:

– Seu Epicuro, Seu Epicuro. O senhor não se envergonha de índices tão perfeitos? Aonde o senhor pretende chegar com uma vida tão saudável? Aos 90 anos? Se mantiver os níveis que acabei de ler, não me espantaria se o senhor passasse dos 100! É isso que o senhor quer? Mesmo conhecendo todo o nosso esforço para manter expectativa de vida do país abaixo dos 70 e preservar as cidades como espaços perniciosos aos idosos…

Não sabia onde enfiar a cara, tamanho o constrangimento.

– Desculpe-me, doutor, é que, desde que abandonei açúcares e frituras, nunca mais fui o mesmo.

Minhas razões não lhe tocaram.

– E o senhor, por acaso, acha que esbanjar colesterol e triglicérides dentro da normalidade é motivo de orgulho? Vai me dizer que também é abstêmio em relação ao álcool e ao tabaco?

Tentei justificar, mas foi em vão:

– Nunca fui de fumar e o preço da bebida anda tão alto que não me sinto estimulado a consumir…

– Mas com remédio o senhor não deixa de gastar, não é? Na sua idade, ter a pressão arterial abaixo de 13 por 8 só com medicação. O senhor sabe o custo de sua aposentadoria ao nosso sistema previdenciário? Pois deveria se informar melhor antes de cultivar hábitos tão sadios.

Não havia nada que eu pudesse fazer para afastar a ideia de que era um péssimo paciente e, então, ele prosseguiu:

– Com que tipo de charlatão o senhor anda se consultando? Vou, agora mesmo, providenciar um tratamento adequado. Há uma padaria aqui na esquina onde se vende tudo de que se precisa para começar uma reeducação alimentar.

Quando meu lábio murchou e o desânimo se escancarou, recebi, como prêmio, as primeiras palavras de apoio na tarde:

– É assim que gosto! Uma melancoliazinha, uma insatisfação que force o sangue a circular com mais afinco. Na sua idade, para virar uma depressão é rapidinho. Pode ser outro caminho, mas não precisamos nos fiar nele; há alternativas mais eficientes, é só seguir minha receita: comecemos com um maço de cigarros por dia, uma dose de cachaça a cada oito horas, carne de porco frita em óleo de milho nas duas grandes refeições e doces ao longo do dia.

Eu só conseguia aquiescer cabisbaixo às recomendações do médico, que, por fim, se mostrou compreensivo ao me encaminhar para a saída. Quando estava prestes a me perder de vista, deu um breve aceno e fez questão de me estimular:

– Não precisa voltar com um câncer na próxima consulta, Seu Epicuro, esse tipo de avanço é irreal. Mas não vou aceitar recebê-lo sem ao menos uns quilinhos a mais e significantes alterações nos seus exames, de acordo?

Era um ótimo profissional, sem dúvida alguma.

Após assinar a promissória referente à dívida da consulta, que excedia em muito o valor que recebo por mês da previdência social, voltei para casa convicto e feliz: seria um novo homem a partir de então.

Lucas Verzola nasceu em São Paulo em 1988. É autor de São Paulo Depois de Horas (Patuá, 2014), finalista do Prêmio SESC de Literatura 2013/2014 na categoria contos. Formado em direito pela USP, onde também cursou história, trabalha atualmente no gabinete da vice-presidência do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Integrou antologias e tem poemas e contos publicados em revistas e jornais literários.
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