Sandra

piucta

por Lucas Verzola

Me lembrei de Sandra por conta do natal. Não que a gente tenha passado as festas de fim de ano juntos, é que eu me esqueci de comprar um presente e acabei tocando pra frente o porta-retratos em que repousava aquela fotografia – a gente embaixo dum guarda-sol tomando cerveja – que ela me deu. Estava enfiado no fundo de uma gaveta longe da vista, e a acho que a camada de quinquilharias que nos separava deu conta de afastar minha cabeça dela. Mas foi só retirar a foto da moldura que tudo veio à tona, como se eu tivesse conjurado uma entidade. O recadinho escrito no verso, a letra de quem acabou de aprender a manejar a caneta naqueles cadernos de caligrafia, deu o tom da noite. “Vc pode ir/ eu fico pra sempre contigo”. Minha experiência em relacionamentos pode ser resumida em meia-dúzia de casos mal resolvidos, porém só Sandra me atormentava com certa frequência – a ponto de eu ter decidido esconder o retrato. A conheci num ensaio da Vai-Vai. Minissaia, uma blusinha de paetês. Trabalhava num posto de gasolina na Nove de Julho. Me recebia em seu apartamento no Treme-treme da rua Paim, acendia um beck e cortava uma fatia de marrom-glacê. Eu sempre levava um livro pra ela ler. Não sei bem se ela gostava das minhas escolhas, o que eu sei é que ela lia. Fazia questão de ler na minha frente, mexendo os lábios naquele silêncio que antecede o sussurro enquanto passava os olhos pelas linhas. Eu me achava o máximo e não passava de um completo imbecil. A nossa foto, a única, foi tirada por um sujeito que alugava cadeiras e esteiras num dos muitos finais de semana que a gente passou na praia da Guilhermina, no apê do meu chefe. Semana sim-semana não, ele emprestava a chave sem pestanejar, apenas com um gracejo que também cumpria o papel de recomendação: que eu não gozasse no sofá. Eu pegava a estrada na sexta-feira de madrugadinha, ela gostava de comer o pão sovado do Frango Assado na chapa e de tomar uma Caracu. Na última descida, só conseguimos aproveitar a praia na manhã de sábado, já que não era nem onze horas e começou a chover. Pra espantar o tédio, a gente trepou em todos os cômodos, todas as posições, usando de apoio todos os móveis possíveis. Acho que todo o repertório do casal foi gasto naqueles dias, porque assim que a deixei em casa na noite de domingo, nunca mais a gente se falou. A verdade é que tudo isso me excita um bocado e acabo batendo uma punheta fora de hora segurando a foto na mão esquerda. Dura menos de um minuto e já a guardo de volta no fundo da gaveta. Até o próximo natal, quem sabe. Ou talvez Sandra seja uma lichia que dá fora de época.

Lucas Verzola nasceu em São Paulo, em 1988. É editor da revista Lavoura e autor de “Em Conflito com a Lei” (Reformatório, 2016) e de “São Paulo Depois de Horas” (Patuá, 2014).
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