MAIO 2018, NAS GRAÇAS

por Laís Araruna de Aquino

eu então sabia que a vida seria isto
enquanto descia a rua com meu cachorro
eu sabia que descia aquela rua no entardecer
da minha juventude, uma rua de mangueiras, jasmins e acácias,
em cuja esquina uma buganvília jorrava
em flor sobre os muros de uma casa,
renovando-me o gesto de calma contemplação
contra o meu espírito obstinado em velhas questões
seria isto –
passeios e intermitências, pensamentos engastados
em nomes e sínteses inúteis, mas no caminho não-raro
uma rua desaguava no céu polido de azul
ou uma lufada de vento fresco saciava o verão quase eterno
a cada manhã, logo cedo, os raios do sol ainda baixo,
perto do horizonte, iluminavam-me a face sem aquecer,
devolvendo a promessa dos dias como um sábado sem deveres
ou uma infância fora do tempo
seriam essas delicadezas inesperadas do cotidiano
e, por isto mesmo, esperadas sem ânsia e inquietude
seria isto e a consciência latejando como quem diz
estás viva e é isto ou nada
eu sabia que seria isto
a vida se consumando ininterruptamente
nos seus pedaços, sem uma borda ou um anteparo
de onde pudéssemos conservar intacta a memória
dos dias, sem a contaminação de tantos outros dias
perdidos na malha dos anos;
a vida se consumando sem o fulgor do bronze
ou de incêndios violentos, como uma perda gradual
que dá por si tarde demais
eu me despedia das quimeras, dos clarões duradouros de felicidade,
que pudessem alcançar todo o caminho
e ressignificar os fatos mais aleatórios, redimindo-os
em uma vida cheia de sentido –
as coisas ficavam para trás mais sutilmente
como o rastro de um barco no oceano
ou a fumaça de algum fósforo logo dissipada
talvez a mudança mais perceptível fosse o meu
rosto examinado atentamente, uma ou outra
marca que insistia em não abandonar,
a recuperação inexata da pele, que não fechava
as aberturas do tempo
por isto, por essas configurações que se perdiam
a todo instante, eu tinha de me deixar arrebatar
pela dignidade de cada coisa no mundo e iluminar-me
de sua presença, para que o sentido nascesse
dentro de mim como um voo de pássaro planando no azul
desprovido de direção, um voo que é todo voo
e não outra coisa ou desejo de ir ou retornar
um voo como um gesto vibrando no ar
no seu puro movimento
o sentido nasceria ao deixar-me existir
ao lado de cada coisa existente,
de que somos talvez apenas o mensageiro –
cada coisa –
as folhas do bambu vibrando sobre a mesa
o azul acima das antenas dos edifícios
exaurindo-se no fogo lento do horizonte
a hora escorrendo na boca da noite até encontrar o sono –
eu sabia que a vida seria isto ou qualquer outra coisa
escoando veloz dentro do tempo
veloz e volátil como o perfume das espadas de são jorge
numa noite ordinária de maio
e dentro desta noite meu coração batendo compassado
no meio de invisíveis destroços e nascimentos
até que o fluxo abandone o meu corpo
e paire acima, na copa das árvores, ondulando
no movimento eterno das massas de ar, indo e vindo
incessantemente, sem dar pela minha ausência
neste mundo

Laís Araruna de Aquino nasceu em 1988, no Recife, onde vive. É formada em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco. Seu primeiro livro, Juventude, é o vencedor do Prêmio Maraã de Poesia e sairá em 2018 pela Editora Reformatório.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s