Dia perfeito

Crédito da imagem: Kopeto | http://www.kopeto.fr

por Anna Monteiro

Depois de um tenebroso inverno, o bambu começou a brotar. 

Tenebroso: adj (lat tenebrosu) 1. Cheio ou coberto de trevas. 2. Muito escuro e denso; caliginoso. 3. Difícil de compreender; misterioso. 4. Terrível. 5. Aflitivo, pungente. 6. Indigno, criminoso. 7. Horrível, medonho.

Sim, horrível, indigno. Caliginoso, boa palavra. Depois disso, o bambu começou a brotar.

Poucas coisas na vida me dão tanto prazer quanto observar as folhinhas verdes na varanda. Verdes em tonalidades diferentes, pequeninas.  Rompem a haste, enfrentam o vento, o sol, a chuva. É preciso coragem para brotar. E elas  aparecem a cada dia. Luminosas. E no dia seguinte estão maiores. E novas surgem. 

Você nunca entendeu como essas coisas funcionam. Sei que não.  Alegria com folhas de bambu, qual o valor disso, você me perguntaria, e sairia de cena dizendo nomes feios, mexendo a cabeça, fazendo o barulhinho insuportável da língua batendo nos dentes. Os insultos estavam muito repetitivos nos últimos tempos, sabe? Eu te avisei, disse chega tantas vezes. Você nunca escutou. 

Hoje eu apaguei todas as nossas fotos juntos. Foram  meses até aqui. Agora consegui. Doloroso, foi sim. Menos do que imaginei. Porém. Se todas as cartas de amor são ridículas, diria o poeta, as fotos em que parecíamos felizes são mais ainda.  Sorrindo para a câmera. À toa. 

Ridículo: adj (lat ridiculu) 1. Digno de riso, de escárnio, de zombaria; que se presta ao cômico; irrisório. 2. De pouco valor; insignificante.  

Sim, as fotos eram dignas de escárnio, insignificantes, agora enxergo isso. Pena, acabou. As coisas se acabam um dia, percebeu?  Uma hora dessas até o planeta vai acabar, tudo isso aqui em nossa volta se vai, engolido por um buraco, explodido por um meteoro, não sei.

Olho o mar por trás da fileira de bambus. A espuma branca vai alto. Umas gaivotas se arriscam. Para elas é fácil, assim por cima até eu.

Marquei todas as selfies juntos, essa praga de selfies, nós de rosto colado, encenando beijos ou abraços, você com a mão no meu ombro. Posicionei o cursor e cliquei lixeira.  Agora as fotos que restam são só de paisagens, montanhas, lagos, mastros de barquinhos, essas platitudes de outras épocas, e eu sorrindo para a câmera. Quando eu sorrio aperto os olhos. É melhor colocar os óculos escuros.  Mas pelo menos sorrio. Você sempre mal humorado. É difícil esticar os lábios para os lados, levantar as bochechas, mostrar os dentes, não é?

Preciso aprender a sorrir sem fechar os olhos. Há tanta coisa que eu preciso aprender. Recuperar o tempo perdido.  

Esquisito apagar tudo, sabe? Não há mais nós no meio de nada. Tão esquisito que eu não consigo descrever. 

Esquisito: adj (lat exquisitu) 1. Excêntrico. 2. Que se encontra raramente. 3. Estrambótico. 4. Incomodado, adoentado. 5. Elegante. 6. Precioso. 7. Primoroso. 8. Excelente. 9. Que não é vulgar.  

Sim, uma sensação incômoda, rara. Todos os lugares, qualquer um a que fomos, todas as cidades, lagos, montanhas, arranha-céus, praias, vulcões ao fundo, sumiram. Todos. Apagados. Do alto daquela torre da igreja, lembra? A cidade em bloquinhos, meio Legolândia? Apaguei. De capacete na bicicleta. Apaguei. Na escadaria, igual àquela outra tirada tantos anos antes, ainda em máquina com filme, quando um dia houve felicidade. Você me enlaçando a cintura. Eu de cabelo bem curto, uma franja caindo perto dos olhos. Nós dois. Apaguei. 

As fotos de papel ainda estão na caixa, nelas não toquei. A caixa separada na prateleira da estante. Faltou coragem para rasgar papel. Tudo a seu tempo.

Tentei te escrever, mas não acho palavras, as frases se desmancham nesse caminho tortuoso entre as sinapses e o teclado. A evolução não chega a ser tão perfeita, a gente não tem um fio que conecta as ideias ao computador. Nossa espécie precisa de umas boas melhorias. Então palavras se perdem, tênues, leves, não se formam. E para que que eu vou te escrever, não é mesmo? Você não vai ler, e se ler vai entender tudo diferente do que eu quis dizer.  

As ondas estão altas. Esse cheiro que eu adoro é espalhado com o vento, que balança a cortina, e me traz o tal do contentamento que você nunca entendeu. Ponho os fones, e saio. Saímos. O cachorro e eu.

Descalça. Hora do passeio. Antes da chuva. As nuvens estão se armando, escuras, parecem uma nave espacial tomando a cidade, como nos filmes de ficção científica. Que você gosta. Eu assistia para te acompanhar. Só para te acompanhar, aquilo nunca me interessou nem um pouco. Tanta coisa que eu fiz para te acompanhar.  Só.

As patinhas do cachorro afundando na areia molhada. As marcas dos meus dedos e calcanhares ao lado.

Ando ouvindo muito Lou Reed. De tempos em tempos eu cismo com alguém e ouço sem parar, sempre foi assim, não é? Perfect Day. Também eu tomaria uma sangria no parque, mas sozinha. Eu não vou mais para casa com você. Nunca mais. 

Nunca: adv (lat nunquam) 1. Em tempo algum; jamais.

Sim, nunca mais. Você diz que eu exagero quando digo nunca, jamais, desse jeito assim tão decidido.  E depois volto atrás, me entrego. Meia verdade: isso passou. 

Preciso aproveitar enquanto a maré não sobe. Enquanto não chove. Mais um pouco e vai estar tudo encharcado. O vento arranca meu lenço da cabeça,  que vai voando, branco, faz movimentos no ar, e pousa no chão. Rápido. 

É verdade, estou na fase de Lou Reed e lenços na cabeça, de apagar fotografias e escrever cartas que só ficam prontas no pensamento.

O cachorro me segue, vai pulando na areia fugindo das ondas.  Corre, ameaça ultrapassar a arrebentação e volta, assustado com a força do mar. A expressão rabo entre as pernas, exata. Assovio, o chamo de volta. Ele se esforça para me acompanhar, suas patas curtas se prendem na areia pesada. Mas seguimos.  

Os bambus, fortes, ficam para trás. Resistem. O vento faz meu lenço alçar outro voo e o leva mais longe. Não vou conseguir pegá-lo. 

Nunca mais.

As nuvens estão muito cinza. Escuras demais.  A maré vai subir logo, logo.  

Fim: sm (lat fine) 1. Termo, conclusão, remate. 2. Extremidade, limite de espaço, extensão ou tempo. 3. Intenção, propósito. 4. Escopo, alvo, objeto, fito, mira. 5. Morte.  

Anna Monteiro é carioca, jornalista, formada pela Escola de Comunicação da UFRJ, com especialização em produção de TV & Cinema pela Escola Superior de Propaganda e Marketing – ESPM. Participou da coletânea de contos 14 novos autores brasileiros, organizado por Adriana Lisboa. Granulações é seu romance de estreia.

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