Possessão

“Decreto que o pronome possessivo da primeira pessoa do singular, meu, minha, não corresponde à verdade dos fatos, e será abolido da vida que levo, pois: a xícara não é minha, embora a tenha comprado; o irmão não é meu, nem de si mesmo; a vista da janela não pode ser minha, para os olhos que estão em mim é que ela se abre; os olhos não são meus, existem nesse rosto para que me identifiquem;”

por João Anzanello Carrascoza

Último domingo de outubro

“Último domingo de outubro, nenhuma nuvem para estragar o passeio. Em volta da mesa do café, os cinco mastigam apressados. Enfim, a pescaria tantas vezes protelada acontecerá. Novembro já entra no período de defeso: proibido incomodar os peixes em sua casa silenciosa. E quem mais rápido mastiga é o Eduardo, excitado com a promessa a se cumprir. De nada adiantam as advertências da mãe para que mastigue direito. As duas irmãs, que sempre detestaram os piqueniques de domingo à beira da lagoa, riem deliciadas com a careta do Eduardo, que acaba de queimar a língua com o café quente.”

por Menalton Braff

Um dia a vida acontece

“Um dia a vida acontece apertada com um nó na garganta. Perde-se alguém de casa, do sangue. Perde-se um passarinho que nunca mais virá cuspir cantoria na beirada da janela. Perder remói dentro. Que palavra fatal, onírica e perigosa! Que palavra gelatinosa é perder. Não tem nenhum significado, a não ser asa quebrada, vento cheirando a fundo de rio, lembrança de infância queimada como papel envolto em fogo de alfazema. Perder vem de vingança. Vingança da gente contra a gente, do silêncio contra a palavra, da dor contra a ferida, da saudade contra a presença, do rio contra as curvas do caminho, da esteira contra o chão duro e frio.”

por Fernando Coelho

Bailarinas

“Um deslize e a vida se esvai, como um balão que esvazia e sai voando das mãos para lugar nenhum. Ela nunca teve medo de perder o controle. Esticava o fio até restar a linha tênue entre a vida e a morte.”

por Tamiris Volcean