O Ex-comunista

– O mundo precisa dos pobres. Demorei a entender isso, mas agora sei: mundo sem pobres é inconcebível.
Aquela frase dita assim, de chofre, no meio de uma conversa informal, me chocou, confesso.
– Por muito tempo algumas pessoas lutaram pelo fim da pobreza.
Eu próprio fui um deles. Mas agora entendo que a pobreza é necessária ao equilíbrio do planeta – ele continuou.

por Zeca Baleiro

Possessão

“Decreto que o pronome possessivo da primeira pessoa do singular, meu, minha, não corresponde à verdade dos fatos, e será abolido da vida que levo, pois: a xícara não é minha, embora a tenha comprado; o irmão não é meu, nem de si mesmo; a vista da janela não pode ser minha, para os olhos que estão em mim é que ela se abre; os olhos não são meus, existem nesse rosto para que me identifiquem;”

por João Anzanello Carrascoza

Duas cidades

“Se o livro impresso realmente desaparecer, como se cogita, ficarei órfão da minha pequena biblioteca. Talvez outros compartilhem semelhante sentimento de orfandade. Se ocorrer o desaparecimento do livro impresso, futuras gerações não mais poderão perder agradavelmente o seu tempo, a limpar livros, o que lhes roubará a chance de ter surpresas como a que me ocorreu hoje.”

por Decio Zylbersztajn

Um bocado de tristeza

“Fazer samba não é contar piada / E quem faz samba assim não é de nada” Já dizia Vinicius de Moraes, que foi apelidado carinhosamente pelo amigo e parceiro Tom Jobim de “poetinha”, alcunha que, mais tarde, alguns algozes da poesia brasileira, talvez por inveja do confrade boêmio, que ao sisudo convívio acadêmico e as convenções sociais dos intelectuais, preferiu a descontração da música popular e a simplicidade dos bares da vida, ou, pior ainda, por se acharem acima do bem e do mal, detentores dos poderes da crítica, tentaram aludir à ideia de uma poesia menor, de baixa casta literária.

por Marcelo Nocelli

Nem na Capadócia!

“Era eu redator-chefe da Playboy (sim, rapazes, ela mesma, aquela revista saturada de cultura trans que vocês compram para ler interessantes artigos e entrevistas aprofundadas) quando, uma tarde, me liga a escritora Hilda Hilst, grande figura e escritora melhor ainda, porém dada a chamar em momentos pouco adequados. Foi o que aconteceu naquele dia de dezembro, em plena correria para fechar uma edição que deixaríamos pronta antes das férias coletivas. Em meio ao caos, lá estava ao telefone, chorosa, aquela que não sem bons motivos já chamei de minha amiga heavy metal.”

por Humberto Werneck