Último domingo de outubro

“Último domingo de outubro, nenhuma nuvem para estragar o passeio. Em volta da mesa do café, os cinco mastigam apressados. Enfim, a pescaria tantas vezes protelada acontecerá. Novembro já entra no período de defeso: proibido incomodar os peixes em sua casa silenciosa. E quem mais rápido mastiga é o Eduardo, excitado com a promessa a se cumprir. De nada adiantam as advertências da mãe para que mastigue direito. As duas irmãs, que sempre detestaram os piqueniques de domingo à beira da lagoa, riem deliciadas com a careta do Eduardo, que acaba de queimar a língua com o café quente.”

por Menalton Braff

Qumran

“Quanto ao enredo: pretensiosamente, a história da viagem de um jovem de Atenas
à Qumran, como um personagem do Bellow em Chicago, Citrine ou Herzog, “um intelectual que sofre uma crise metafísica que o torna estranho ao mundo”, não
“ternos bem cortados”, mas sandálias, cabras, no deserto da Judeia.”

por Otavio Furman

Paixão

“A graça onde bocejava o tédio; o espelho agora insuficiente para tantas consultas, o lixo empurrado pra debaixo do tapete com o bico da sandália e, da janela, domingo de sol, o aceno da montanha-russa. Três loopings no escuro riscando cometas no céu de estrelas, várias cadentes, algumas desnorteadas, todas ensandecidas. E, de ponta-cabeça, seus braços estirados no vazio, vupt!”

por Santana Filho

Resenhas

“Escreva bêbado, edite sóbrio”, segundo Hemingway.

Hoje, pela manhã, uma leve ressaca, um expresso, algumas lacunas de memória, me deparo com 619 palavras, certamente minhas.

Como isso se deu?

Devo submete-las ao meu editor?

por Otavio Furman

Roteiro de uma morte anunciada

“Abrimos com a imagem de poucas pessoas na fila da bilheteria. Num plácido plano geral é possível observar uma fila muito maior no hall de entrada, onde as pessoas compram grandes baldes de pipoca.

Um casal (os últimos da fila para compra das entradas) conversa.”

por Marcelo Nocelli

Jazigo Perpétuo

“Cortava-se o queijo na mesa nua. Era de osso o cabo da faca. De madrugada, eu estudava na cozinha e a família se recolhia ao cansaço. O bule de ágata, o café nunca esfriava na chapa do fogão à lenha. Minha mãe não permitia que o picumã se acumulasse na treliça do forro. Mas numa noite de vento, de afugentar o sossego e as telhas, caiu um pó fuliginoso sobre A Idade da Fé, um dos volumes de Will Durant.”

por Mafra Carbonieri

Rubenira

“Rubenira tem medo de gente.

Talvez por isso ainda seja bibliotecária.

Rubenira tem a mesma cor e o mesmo cheiro dos miolos dos volumes antigos, os de capa dura. Lombadas de difícil identificação.”

por Marcelo Nocelli

A Exclusão Transfigurada

“Entre outras coisas eu, Kafka,…

Durante muito tempo eu pretendi nascer para dentro do mundo. Me parece bastante estranho que eu tenha nascido para fora do mundo. Como é possível que, ao nascer, não se nasça para o interior do mundo, mas para uma zona exterior e ilegal? Minha condição é de aposentado prematuro; desde o início desencarregado do serviço do mundo por déficit de algum liame essencial. Em mim o liame era de gelo, amarra logo derretida e desfeita.”

por Juliano Garcia Pessanha

Petit Trois

“Ontem, sem que eu merecesse, o Fumaça me brindou com um baseado de qualidade. Gentileza assim, irmão, só no Carandiru, embora não em todos os recintos. Boa de cheiro e de corpo, a erva me elevou. Axé. O Fumaça reteve a tragada e soltou-a com comedimento. Olhou a gorda, imensa, na capa duma revista antiga. Ao esticar as pernas, ele sentenciou no conforto:

“Gorda só se come no escuro, depois do banho e antes dos trinta”, jogou no piso a revista.”

por Mafra Carbonieri