Dia perfeito

Sim, horrível, indigno. Caliginoso, boa palavra. Depois disso, o bambu começou a brotar.

Poucas coisas na vida me dão tanto prazer quanto observar as folhinhas verdes na varanda.

A consulta

“Ao me deparar com uma prestativa atendente na antessala da clínica vazia em plena tarde de terça-feira, quase me arrependi de ter cedido o ultimato feito pelo próprio médico ao telefone, mas foi só me recordar do irrecusável apelo que qualquer dúvida se dissipou: pelo dobro do preço normal da consulta, teria direito a um atendimento trinta minutos mais breve.”

por Lucas Verzola

Possessão

“Decreto que o pronome possessivo da primeira pessoa do singular, meu, minha, não corresponde à verdade dos fatos, e será abolido da vida que levo, pois: a xícara não é minha, embora a tenha comprado; o irmão não é meu, nem de si mesmo; a vista da janela não pode ser minha, para os olhos que estão em mim é que ela se abre; os olhos não são meus, existem nesse rosto para que me identifiquem;”

por João Anzanello Carrascoza

O Êxtase de Judite

“Um corte em diagonal no supercílio, causado por uma ave ao colidir com o seu corpo em queda livre fez com que Judite chorasse a dor do pássaro e se lembrasse do seu primeiro amor atropelado por um trem cargueiro. Murilo lhe dedicava poemas e dançava diante de sua janela. Depois lhe veio à memória a cadela vira-lata afogada no lago da fazenda do avô. Chinelinha. E Ismália, a melhor amiga, morta, caída do alto de uma roda gigante. Morreu com uma maçã do amor na boca.”

por Marcelo Maluf

Ovo

“No apartamento, desato a gravata, descanso a pasta de couro, dispo o terno, alinho o bigode e passo o batom vermelho na boca ovalada diante do espelho. Pincelo o ovo que vou chocando no circuito da boca, e só quando o tenho sanguíneo e ligeiro é que cuspo a palavra.

Aí me escrevo.”

por Santana Filho

Qumran

“Quanto ao enredo: pretensiosamente, a história da viagem de um jovem de Atenas
à Qumran, como um personagem do Bellow em Chicago, Citrine ou Herzog, “um intelectual que sofre uma crise metafísica que o torna estranho ao mundo”, não
“ternos bem cortados”, mas sandálias, cabras, no deserto da Judeia.”

por Otavio Furman

Som e Fúria

“O taxista que me levou ao aeroporto aprecia música clássica; o rádio não saiu da Cultura, numa retrospectiva de Stravinsky.

O amigo à espera no Rio prefere o POP. No vigor dos cinquenta, ainda repercute o show do Jake Bugg dois dias atrás, portanto, ouvimos todo o CD durante o percurso até o apartamento na Barra.”

por Santana Filho

Entre chás, casamento e bicicleta

“Meu caro Euclides,

Escrevo para te informar que planejo abrir mão do projeto literário. Acordei há pouco, após um sonho com elfos e ninfas às voltas com o castigo da imortalidade, e a primeira lembrança onírica foi um fim de tarde na Academia, participando do chá, onde o Tiririca também estava servido, e éramos, todos, imortais. Nélida me olhava através do aquário de vidro onde boiam seus olhos, e Lygia, a bela Lygia, falava coisas como escrever com carvão pelas paredes em noites insones na mansarda da Consolação; penhoar ao vento.”

por Santana Filho

O dedo

“Achei um dedo na praia. Eu ia andando em plena manhã de sol por uma praia meio selvagem quando, de repente, entre as coisas que o mar atirou na areia – conchas, gravetos, carcaças de peixes, pedras -, vislumbrei algo diferente. Tive que recorrer aos óculos: o que seria aquilo? Só depois de aparecer o anel é que identifiquei meu achado, o dedo trazia um anel. Faltava a última falange.”

por Lygia Fagundes Telles

Autoficção: Notas

Duas síndromes pós-modernas:
Síndrome do Impostor, a eterna sensação de ser uma fraude prestes a ser desmascarado
Uma cujo nome esqueci, mas que se refere a quando você fala de um projeto e falar dele emite ao seu cérebro a ideia de que a tarefa já foi cumprida, logo você perde o estímulo e o projeto morre.
“Pra que serve executar projetos, se o projeto, em si, já é fruição suficiente?”, Baudelaire, em O Spleen de Paris.

por Thais Lancman