MAIO 2018, NAS GRAÇAS

“eu então sabia que a vida seria isto
enquanto descia a rua com meu cachorro
eu sabia que descia aquela rua no entardecer
da minha juventude, uma rua de mangueiras, jasmins e acácias,
em cuja esquina uma buganvília jorrava
em flor sobre os muros de uma casa,
renovando-me o gesto de calma contemplação
contra o meu espírito obstinado em velhas questões
seria isto –”

por Laís Araruna de Aquino

Ventos meninos, mar de pequenos amantes

“é pedra de gelo
ao sol

sereno
o tempo
e guardo”

por Vitor Resquin

Tântalo e o mundo

“é inútil esticar
o braço para tentar
alcançar o mundo.”

por André Oviedo

Um dia a vida acontece

“Um dia a vida acontece apertada com um nó na garganta. Perde-se alguém de casa, do sangue. Perde-se um passarinho que nunca mais virá cuspir cantoria na beirada da janela. Perder remói dentro. Que palavra fatal, onírica e perigosa! Que palavra gelatinosa é perder. Não tem nenhum significado, a não ser asa quebrada, vento cheirando a fundo de rio, lembrança de infância queimada como papel envolto em fogo de alfazema. Perder vem de vingança. Vingança da gente contra a gente, do silêncio contra a palavra, da dor contra a ferida, da saudade contra a presença, do rio contra as curvas do caminho, da esteira contra o chão duro e frio.”

por Fernando Coelho

Prévert

“Ainda faz escuro.

Eu me levanto muito cedo.

Desperto os galos da infância e arrumo a cama.

Nu no tapete,

Faço flexões e alongamentos.”

por Mafra Carbonieri

Persona

A idade do cinema: nenhuma outra expressão caracteriza de modo melhor essa geração a conjurar por todos os meios a imagem horrível das guerras, jogando-se sobre tudo aquilo de que a privavam a disciplina militar e a moral imposta. Para prestar contas do espírito que os animava, a seus camaradas e a ele naquele momento, Aragon assegura ao colecionador Jacques Doucet, em 1922: “A idéia que toda uma geração se fez do mundo formou-se no cinema, e foi um filme que a resume, um seriado. Uma juventude se apaixonou por Musidora em Les Vampires.”

por Claudio Willer

Inscrições

“Eu escrevo
as epígrafes de meus livros.
Hoje epígrafes de escritor ou de filósofo,
ou mesmo de astrólogo,
custam muito caro.
Platão cobra em dracmas
e me convida para O Banquete.
Aviso que tenho compromisso
na Ásia.
Além disso, prefiro Aspásia.”

por Mafra Carbonieri