Ovo

“No apartamento, desato a gravata, descanso a pasta de couro, dispo o terno, alinho o bigode e passo o batom vermelho na boca ovalada diante do espelho. Pincelo o ovo que vou chocando no circuito da boca, e só quando o tenho sanguíneo e ligeiro é que cuspo a palavra.

Aí me escrevo.”

por Santana Filho

Paixão

“A graça onde bocejava o tédio; o espelho agora insuficiente para tantas consultas, o lixo empurrado pra debaixo do tapete com o bico da sandália e, da janela, domingo de sol, o aceno da montanha-russa. Três loopings no escuro riscando cometas no céu de estrelas, várias cadentes, algumas desnorteadas, todas ensandecidas. E, de ponta-cabeça, seus braços estirados no vazio, vupt!”

por Santana Filho

Som e Fúria

“O taxista que me levou ao aeroporto aprecia música clássica; o rádio não saiu da Cultura, numa retrospectiva de Stravinsky.

O amigo à espera no Rio prefere o POP. No vigor dos cinquenta, ainda repercute o show do Jake Bugg dois dias atrás, portanto, ouvimos todo o CD durante o percurso até o apartamento na Barra.”

por Santana Filho

Entre chás, casamento e bicicleta

“Meu caro Euclides,

Escrevo para te informar que planejo abrir mão do projeto literário. Acordei há pouco, após um sonho com elfos e ninfas às voltas com o castigo da imortalidade, e a primeira lembrança onírica foi um fim de tarde na Academia, participando do chá, onde o Tiririca também estava servido, e éramos, todos, imortais. Nélida me olhava através do aquário de vidro onde boiam seus olhos, e Lygia, a bela Lygia, falava coisas como escrever com carvão pelas paredes em noites insones na mansarda da Consolação; penhoar ao vento.”

por Santana Filho