Dia perfeito

Sim, horrível, indigno. Caliginoso, boa palavra. Depois disso, o bambu começou a brotar.

Poucas coisas na vida me dão tanto prazer quanto observar as folhinhas verdes na varanda.

Sandra

“Me lembrei de Sandra por conta do natal. Não que a gente tenha passado as festas de fim de ano juntos, é que eu me esqueci de comprar um presente e acabei tocando pra frente o porta-retratos em que repousava aquela fotografia – a gente embaixo dum guarda-sol tomando cerveja – que ela me deu.”

por Lucas Verzola

A consulta

“Ao me deparar com uma prestativa atendente na antessala da clínica vazia em plena tarde de terça-feira, quase me arrependi de ter cedido o ultimato feito pelo próprio médico ao telefone, mas foi só me recordar do irrecusável apelo que qualquer dúvida se dissipou: pelo dobro do preço normal da consulta, teria direito a um atendimento trinta minutos mais breve.”

por Lucas Verzola

Tântalo e o mundo

“é inútil esticar
o braço para tentar
alcançar o mundo.”

por André Oviedo

Possessão

“Decreto que o pronome possessivo da primeira pessoa do singular, meu, minha, não corresponde à verdade dos fatos, e será abolido da vida que levo, pois: a xícara não é minha, embora a tenha comprado; o irmão não é meu, nem de si mesmo; a vista da janela não pode ser minha, para os olhos que estão em mim é que ela se abre; os olhos não são meus, existem nesse rosto para que me identifiquem;”

por João Anzanello Carrascoza

Último domingo de outubro

“Último domingo de outubro, nenhuma nuvem para estragar o passeio. Em volta da mesa do café, os cinco mastigam apressados. Enfim, a pescaria tantas vezes protelada acontecerá. Novembro já entra no período de defeso: proibido incomodar os peixes em sua casa silenciosa. E quem mais rápido mastiga é o Eduardo, excitado com a promessa a se cumprir. De nada adiantam as advertências da mãe para que mastigue direito. As duas irmãs, que sempre detestaram os piqueniques de domingo à beira da lagoa, riem deliciadas com a careta do Eduardo, que acaba de queimar a língua com o café quente.”

por Menalton Braff

As bordas do prato

“Conversando por email com o Sérgio Tavares, eu disse que há certa mineirice no inglês. Ele então comentou que era bem possível isso dar uma crônica. Como o Sérgio sabe uma coisa ou outra sobre esse negócio de escrever, resolvi esboçar uma tentativa de seguir a sugestão dele.

Afinal de contas, quando eu fizer cinquenta anos, vou ter passado tanto tempo em Minas quanto na Inglaterra e serei assim oficializada como uma “anglo-mineira” ou um “ meio-termo”. Agora, taí uma expressão que cai bem no mineiro: “meio-termo”.”

por Nara Vidal

Regra e Contrário

“Quando surgiram as primeiras análises da geração Y, acho que foi na época em que o filme A Rede Social (aquele do Facebook) foi lançado, eu não senti que me identificava. Devia, por conta da idade, mas não me via como um daqueles jovens recém formados ou no fim da faculdade, querendo não apenas um trabalho, mas algo que realizasse, desse tesão.”

por Thais Lancman

Correr Parado

“O prisioneiro não está preso pelos seus erros do passado e sim pelo pressuposto de que cometerá crimes futuros. Assim, não apenas seu corpo é cativo, mas sua alma, onde reside seu futuro, é invadida igualmente.”

por Luiz Alberto Mendes

Mendigo

“Era dessas tardes iluminadas por âmbares e vermelhos em degrades no horizonte que se perdia. Sentado à varanda da casa de um amigo, vazio de inspiração, eu vagava. A largueza do vento comandava meu pensamento. Fugia-me. Tentava preencher-me por algum movimento que sensibilizasse a alma preguiçosa.”

por Luiz Alberto Mendes