Duas cidades

“Se o livro impresso realmente desaparecer, como se cogita, ficarei órfão da minha pequena biblioteca. Talvez outros compartilhem semelhante sentimento de orfandade. Se ocorrer o desaparecimento do livro impresso, futuras gerações não mais poderão perder agradavelmente o seu tempo, a limpar livros, o que lhes roubará a chance de ter surpresas como a que me ocorreu hoje.”

por Decio Zylbersztajn

Qumran

“Quanto ao enredo: pretensiosamente, a história da viagem de um jovem de Atenas
à Qumran, como um personagem do Bellow em Chicago, Citrine ou Herzog, “um intelectual que sofre uma crise metafísica que o torna estranho ao mundo”, não
“ternos bem cortados”, mas sandálias, cabras, no deserto da Judeia.”

por Otavio Furman

Paixão

“A graça onde bocejava o tédio; o espelho agora insuficiente para tantas consultas, o lixo empurrado pra debaixo do tapete com o bico da sandália e, da janela, domingo de sol, o aceno da montanha-russa. Três loopings no escuro riscando cometas no céu de estrelas, várias cadentes, algumas desnorteadas, todas ensandecidas. E, de ponta-cabeça, seus braços estirados no vazio, vupt!”

por Santana Filho

Resenhas

“Escreva bêbado, edite sóbrio”, segundo Hemingway.

Hoje, pela manhã, uma leve ressaca, um expresso, algumas lacunas de memória, me deparo com 619 palavras, certamente minhas.

Como isso se deu?

Devo submete-las ao meu editor?

por Otavio Furman

As bordas do prato

“Conversando por email com o Sérgio Tavares, eu disse que há certa mineirice no inglês. Ele então comentou que era bem possível isso dar uma crônica. Como o Sérgio sabe uma coisa ou outra sobre esse negócio de escrever, resolvi esboçar uma tentativa de seguir a sugestão dele.

Afinal de contas, quando eu fizer cinquenta anos, vou ter passado tanto tempo em Minas quanto na Inglaterra e serei assim oficializada como uma “anglo-mineira” ou um “ meio-termo”. Agora, taí uma expressão que cai bem no mineiro: “meio-termo”.”

por Nara Vidal

Um bocado de tristeza

“Fazer samba não é contar piada / E quem faz samba assim não é de nada” Já dizia Vinicius de Moraes, que foi apelidado carinhosamente pelo amigo e parceiro Tom Jobim de “poetinha”, alcunha que, mais tarde, alguns algozes da poesia brasileira, talvez por inveja do confrade boêmio, que ao sisudo convívio acadêmico e as convenções sociais dos intelectuais, preferiu a descontração da música popular e a simplicidade dos bares da vida, ou, pior ainda, por se acharem acima do bem e do mal, detentores dos poderes da crítica, tentaram aludir à ideia de uma poesia menor, de baixa casta literária.

por Marcelo Nocelli

Som e Fúria

“O taxista que me levou ao aeroporto aprecia música clássica; o rádio não saiu da Cultura, numa retrospectiva de Stravinsky.

O amigo à espera no Rio prefere o POP. No vigor dos cinquenta, ainda repercute o show do Jake Bugg dois dias atrás, portanto, ouvimos todo o CD durante o percurso até o apartamento na Barra.”

por Santana Filho

Um dia a vida acontece

“Um dia a vida acontece apertada com um nó na garganta. Perde-se alguém de casa, do sangue. Perde-se um passarinho que nunca mais virá cuspir cantoria na beirada da janela. Perder remói dentro. Que palavra fatal, onírica e perigosa! Que palavra gelatinosa é perder. Não tem nenhum significado, a não ser asa quebrada, vento cheirando a fundo de rio, lembrança de infância queimada como papel envolto em fogo de alfazema. Perder vem de vingança. Vingança da gente contra a gente, do silêncio contra a palavra, da dor contra a ferida, da saudade contra a presença, do rio contra as curvas do caminho, da esteira contra o chão duro e frio.”

por Fernando Coelho

Roteiro de uma morte anunciada

“Abrimos com a imagem de poucas pessoas na fila da bilheteria. Num plácido plano geral é possível observar uma fila muito maior no hall de entrada, onde as pessoas compram grandes baldes de pipoca.

Um casal (os últimos da fila para compra das entradas) conversa.”

por Marcelo Nocelli

Entre chás, casamento e bicicleta

“Meu caro Euclides,

Escrevo para te informar que planejo abrir mão do projeto literário. Acordei há pouco, após um sonho com elfos e ninfas às voltas com o castigo da imortalidade, e a primeira lembrança onírica foi um fim de tarde na Academia, participando do chá, onde o Tiririca também estava servido, e éramos, todos, imortais. Nélida me olhava através do aquário de vidro onde boiam seus olhos, e Lygia, a bela Lygia, falava coisas como escrever com carvão pelas paredes em noites insones na mansarda da Consolação; penhoar ao vento.”

por Santana Filho